Vinicultura húngara vai além dos Tokaji

24/07/2014

JORGE LUCKI“Mais difícil do que refazer um vinhedo é recuperar uma mentalidade”, disse Robert Gyula Cey-Bert em sua apresentação na abertura do Symposium da Académie Internationale du Vin (AIV), realizado em Budapeste há um mês. Era uma prévia do que iríamos encontrar durante o roteiro de dez dias que ele, tendo vivido fora os 40 anos em que seu país ficou sob o regime comunista, preparou pelas regiões vinícolas da Hungria.

Depois de séculos de glória, quando os vinhos de Tokaj frequentaram a nobreza europeia, a vitivinicultura húngara sofreu de fato uma sequência de reveses, e ainda passa por um difícil processo de readaptação. A série de adversidades começou com a filoxera, praga que devastou os vinhedos da Europa na segunda metade do século XIX, não tendo tido nem tempo de se recuperar quando veio a Primeira Guerra que culminou logo depois com o Tratado de Trianon, em 1920, em que a Hungria perdeu dois terços de seu território, incluindo-se aí uma parte da região demarcada de Tokaji para a antiga Tchecoslováquia, que, assim, se considerou com direito a utilizar a denominação. Isso toca profundamente os produtores húngaros, que se esmeram em preservar as tradições e seguem as regras impostas pela legislação vigente no país, o que não acontece do outro lado da fronteira, podendo confundir o consumidor e denegrir a imagem do Tokaji. Ao contrário do que aconteceu com a marca “champagne”, que só pode ser usada para espumantes da região de mesmo nome – o estilista Yves Saint Laurent foi obrigado a retirar do mercado e mudar o nome do perfume que havia lançado -, a Hungria não conseguiu impedir os eslovacos de utilizar o nome Tokaji, tendo seu pedido sido rejeitado pelo Tribunal de Justiça da União Europeia em 2012.

Para Robert Cey-Bert, até por ter visto como era antes – ele saiu da Hungria aos 17 anos de idade -, e por voltar a viver lá desde a queda do regime comunista, pior foi a “destruição psicológica” empreendida pelos russos. No que se refere aos vinhos, o sistema coletivista imposto, impedindo a individualidade e forçando alta produtividade, rompeu o compromisso com a qualidade que havia antes. Recuperar esse conceito está cada vez mais difícil, em função, sobretudo, do período de “globalização mental” hoje existente. Embora de forma heterogênea, há um esforço no sentido de evoluir qualitativamente, mas as castas internacionais estão tomando o lugar das uvas nativas e os padrões internos de consumo vêm mudando, aderindo a essa tendência.

Os húngaros, ao menos, não estão deixando de consumir vinho. O grosso da produção vinícola húngara, perto de 90%, é consumida internamente. E não é pouco: a Hungria é o sétimo maior produtor de vinhos da Europa – iguala-se à Grécia e supera a Áustria, por exemplo -, 70% dos quais são brancos (era, há menos de duas décadas, 90%), e o consumo per capita é um dos mais elevados de todo o mundo, girando em torno de 30 litros por habitante por ano.

Do ponto de vista de Tokaji as mudanças não são tão significativas, já que a região que produz os rótulos mais prestigiados da Hungria no exterior representa menos que 10% da área plantada do país e mantém firme sua posição em torno da furmint, uva base dos vinhos locais. O que tem alterado o cenário é a queda no consumo de vinhos doces, o que, aliás, ocorre mundo afora.

Não há como negar que os vinhos doces não estão na moda. Um dos motivos é sua associação como vinho de sobremesa, que limita bastante seu consumo. Internacionalmente, produtores do gênero têm se movimentado para rever esse conceito e mostrar que vinhos doces se harmonizam também durante a refeição. Assim, além dos já manjados foie gras e queijos azuis (gorgonzola e roquefort, por exemplo), aparecem, entre outros, tajine (cozido condimentado de carne, prato típico de países árabes do norte da África), poulet à la crème, camarão com molho de páprica e canard laqué. Não foi diferente desta vez e logo no primeiro jantar servido ao grupo, realizado Castelo de Gödöll, residência predileta da Rainha Elizabeth, da Hungria, a Imperatriz Sissi, na segunda metade dos anos 1800: para escoltar o prato de caça com um sutil molho de canela, acompanhado de mirtilos e damascos, foi proposto o belo Tokaji Aszú 5 Puttonyos 1993, da Disznókö. Combinar até que combina, mas é estranho.

Para não perder mercado, os produtores de Tokaji estão apostando cada vez mais em brancos secos, gênero que alcança hoje 50% da produção local – representava 25% há dez anos -, tendo sucesso de público e de crítica. Há, realmente, grandes brancos à base de furmint em Tokaji, mostrando que a casta tem vocação para vinhos secos de alta qualidade. Um dos primeiros produtores a lançar esses rótulos, o excelente Mandolás, foi a Oremus, vinícola pertencente à consagrada bodega espanhola Vega Sicília e comandada desde o início, em 1993, por András Bacsó, um dos mais respeitados enólogos do país.

A chancela que o modelo precisava pode ser conferida na postura assumida por István Szepsy, nome mais importante dos tokajis e responsável maior pelo movimento de recuperação da região. No começo, Szepsy não acreditava no modelo, por enxergar na furmint níveis de acidez muito elevados, padrão que particularmente lhe fazia mal. Seu primeiro vinho foi produzido até por falta de opção, já que a safra de 2000 não foi pródiga em uvas botrytizadas. O resultado não foi de todo ruim, pela riqueza e mineralidade que o vinho apresentou, além de um bom potencial para “crescer” na garrafa. Com o tempo, Szepsy foi desenvolvendo técnicas de manejo de vinhedo e ajustando a vinificação em tonéis de 500 litros de carvalho húngaro, adaptando-as às diferentes parcelas que compõem os 53 hectares que ele tem.

O painel que ele nos ofereceu foi inesquecível, começando com uma “horizontal” da safra 2011: o sofisticado Úrágya, o mais mineral Urbán, o amplo Betsek, e o top Szent Tamás, do qual são produzidas apenas 500 garrafas por ano. Na sequência, uma pequena “vertical” deste último – 2010, 2008 (sublime) e 2006 -, para que tivéssemos um apanhado do comportamento climático de cada ano, de sua evolução na garrafa e dos ajustes implementados ao longo deste período.

O grande atrativo da viagem à Hungria era, sem dúvida, a região de Tokaj, mas não faria sentido se fixar só nela, tendo em vista que mais de 90% da produção vinícola do país está fora de lá. Além dos vinhos de diferentes produtores servidos nas refeições e em degustações específicas, o giro pela Hungria contemplou outras três grandes regiões, tidas como as mais interessantes do país: as cinco áreas que rodeiam o lago Balaton, Villány e Eger.

Com exceção de Villány, situada mais ao sul, quase na fronteira com a Croácia e dedicada basicamente a vinhos tintos, nas duas outras convivem os dois gêneros, além de um rosé frisante que tem tido bastante aceitação, em especial no verão. O apelo às castas estrangeiras é uma constante, como ficou demonstrado já na primeira vinícola visitada, a premiada Konyári – eleita “produtor do ano” em 2008 National Wine Expert Comission da Hungria -, situada na região de Balatonboglár. Com 30 hectares de vinhedos bem cuidados e uma vista privilegiada do lago Balaton, tem vinhos bem feitos, mas, a rigor, me interessei mais pelo único elaborado com a kékfrankos, correspondente à blaufränkisch austríaca e uva tinta mais plantada no país com oito mil hectares.

Foi meu primeiro contato com a kékfrankos e a elegi como cavalo de batalha nas (amigáveis) discussões com os produtores locais na tentativa de convencê-los a, sem deixar de pensar no “cash flow” (como disse um deles), fazer um trabalho de informação junto aos consumidores húngaros para que não se deixem levar pelos modismos de fora – me engajei na luta de Robert Cey-Bert pera resgatar o espírito nacional tolhido pelos soviéticos. A bem da verdade, não é uma questão de ideologia. É uma casta que ao longo do tempo se adaptou às condições locais, ensejando vinhos com bom frescor, taninos leves e bem integrados, formando um conjunto equilibrado, com identidade. Um pouco mais leve, mas igualmente interessantes, são os vinhos produzidos com kadarka, outra variedade tinta identificada com a Hungria.

Seria prematuro e pretensioso apontar uma região húngara que oferece os melhores vinhos tintos. A citada heterogeneidade que caracteriza hoje a produção vinícola do país faz com que o produtor adquira importância maior do que o terroir. Mas Villány parece despontar como a que deve ser olhada com mais atenção no futuro. De lá, meu destaque foi para os vinhos da vinícola Bock – o kadarka e o kékfrankos -, e o Tiffán, que faz jus ao prestígio que tem, sobretudo pela sua Cuvée Régimódi, que tem na sua composição kadarka e portugieser (não tem nenhuma relação com castas portuguesas), e pelo Grand Sélection 1999, um corte de cabernet franc e cabernet sauvignon. Por outro lado, não me impressionaram os vinhos de Attila Gere (pronuncia-se “guêre”), que divulgam ter deixado para trás o famoso Petrus em prova às cegas realizada nos Estados Unidos. Talvez por isso achei-os pretensiosos.

Também esperava (bem) mais dos tintos de Tibor Gál, produtor localizado na região de Eger, no norte do país. A vinícola, inaugurada em 1993, leva o nome de seu fundador, que ficou famoso fora da Hungria por ter sido enólogo do Ornellaia, renomado vinho da Toscana. Gál morreu em 2005 num acidente de carro na África do Sul, onde dava consultoria para a Capaia Winery, mas não me parece que a má impressão deixada pelos vinhos agora provados seja pela falta de seu mentor. É seu filho que ficou à frente do projeto, mantendo as diretrizes traçadas pelo pai, entre elas acreditar na adaptabilidade da pinot noir à região. Não foram só seus pinots que decepcionaram.

Boas lembranças de Eger ficaram por conta da Thummerer, vinícola fundada em 1984, que tem cem hectares de vinhas implantadas em solo vulcânico, característico da zona. A adega, inclusive, está instalada numa série de galerias escavadas a mão no mesmo tipo de terreno. Além de um bom kékfrankos, despontou um belo Egri Bikavér – “sangue de touro de Eger”, em tradução literal -, denominação que contempla vinhos de corte na região e que leva em sua composição castas nativas e internacionais. É uma maneira de acomodar a boa tradição com os novos tempos, deixando todos contentes.

colaborador-jorge.lucki@valor.com.br

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