Um apanhado do melhor no Priorato

1433062_84627817bardegaar123058139040003Em Girona, cerca de 100 km ao norte de Barcelona, exatamente no imóvel vizinho àquele em que seus pais serviam uma culinária catalã tradicional, os irmãos Roca abriram, em 1986, o El Celler de Can Roca, eleito o melhor restaurante do mundo pela revista inglesa “Restaurant” em 2013 – na edição deste ano ocupa o segundo lugar, o que é um mero detalhe -, e triestrelado no guia Michelin. Abraçando naturalmente uma especialidade, os três revelaram ao longo do tempo o extremo talento da família: Joan é o chef, Jordi cuida das sobremesas e Josep é o responsável pela sala e pelos vinhos.

O restaurante já era reconhecido pela excelência de seus vinhos – “celler”, em catalão, significa bodega, lugar onde se guarda vinho – bem antes de se mudar, em meados da década passada, para o endereço atual. Ainda que na casa antiga tudo fosse requintado e de bom gosto, Josep Roca achava pretensioso montar a adega conforme imaginava e recheá-la com as mais de 30 mil garrafas – na época, hoje tem mais – pacientemente garimpadas.

Na verdade, o que mais lhe incomodava nas visitas que regularmente fazia a restaurantes com adegas suntuosas era que aqueles espaços não expressavam a personalidade do sommelier. No local onde o profissional de vinhos passa a maior parte das horas só havia garrafas, dificilmente uma mensagem ou toque pessoal. Em suas novas instalações, ao contrário, os sentimentos estão à flor da pele.

Josep Roca, ou Pitu como é chamado, diz que naquele seu pedaço ele se despe emocionalmente. Daí, sem segredos, poder expor suas preferências. Na ampla área destinada à adega – 200 metros quadrados, tanto quanto é reservado à cozinha e ao salão -, passada a entrada toda envidraçada, um corredor divide o setor onde repousam garrafas das mais diversas procedências – a carta tem mais de 2.500 rótulos – da parte reservada às suas paixões. São cinco – champagnes, rieslings alemães, borgonhas tintos, vinhos do Priorato e jerez -, ocupando espaços independentes nos quais o vinho é o protagonista principal e é possível ir além dos sabores elementares. Audição, tato e visão os complementam e dão uma dimensão bem maior à sensação de prazer que um vinho pode proporcionar. Assim, em cada ambiente há uma música adequada, uma peça decorativa – palpável – a ele associada e posicionada sobre uma mesa de centro, e imagens da região de origem especialmente realizadas por um fotografo seu amigo projetadas em sequência em duas telas planas.

A primeira saleta – são todas em “U” com as três paredes tomadas por prateleiras com garrafas dos melhores produtores – é dedicada aos champagnes. Nem seria necessário olhar para as prateleiras para descobrir. Bastaria ouvir um trecho da música, o primeiro movimento Allegro, do Divertimento em Ré Maior K136, de Mozart. A alegria e leveza da obra já denunciam a qual vinho ela está associada. Em caso de dúvida seria suficiente colocar as mãos na sopeira de prata que compõe o centro de mesa e apanhar um punhado de pequenas bolinhas de aço inox. Elas transmitem, tanto quanto as borbulhas de um champagne na boca, uma sensação de frio, deslizamento, sonoridade festiva e positivismo.

Um suave, mas saltitante, minueto de Mozart é um complemento bastante interessante aos aspectos visuais e táteis do corte de seda verde claro colocado para representar os rieslings alemães. A música, junto da cor e do toque macio do tecido, define com perfeição a característica deslizante, alegre, aromática e floral destes brancos tão sedutores. E sua reconhecida longevidade? Para expressar esse atributo, Josep se vale do mesmo pedaço de seda, jogando-o para cima. Ao cair de volta na travessa, o pano se acomoda com extrema naturalidade, o que ocorre quando a cena se repete. Significa que os rieslings viajam no tempo e nunca perdem sua forma, trama e jovialidade.

Um dos fatores mais importantes da Borgonha é seu respeito à terra, assim como o grande diferencial de seus tintos é a elegância, a sutileza e a necessidade de se ir mais fundo para buscar seus segredos. Foi com base nesses aspectos que Pitu Roca concebeu o espaço de sua terceira paixão. A música é Méditation de Thaïs, de Jules Massenet, compositor que, segundo os críticos, soube conjugar admiravelmente emoção e recato, sofisticação e sinceridade. O centro de mesa é composto por vários saquinhos de veludo vermelho cheios com diferentes terras da região. Dois saquinhos vazios mostram, sem subterfúgios, a delicadeza, a feminilidade, a textura e o perfume da pinot noir.

O Priorato, 150 km ao sul de Barcelona, é uma região árida e montanhosa, onde o cultivo da vinha é árduo, originando (principalmente) vinhos tintos com personalidade, francos e austeros, que não dissimulam. Nada poderia refletir melhor toda essa situação que uma gamela feita com madeira de oliveira – representa o Mediterrâneo e as horas de sol – e, dentro dela, apenas uma lasca de pizarra, rocha em lascas característicos do subsolo da região, traduzindo a rusticidade do terreno de lá. A trilha sonora reforça: a veemência de um solo de violoncelo puro e profundo de Pablo Casals, interpretando Le Cygne, do Carnaval des Animaux, de Camille Saints Saëns.

O jerez, assim como os outros quatro vinhos prediletos de Roca, tem características muito particulares que só são alcançadas na sua origem. Em termos climáticos a Andaluzia é a região mais ensolarada e uma das mais quentes da Europa, com influência marítima importante, pela proximidade do oceano Atlântico e pelos ventos úmidos que dele procedem. A luz intensa reverbera no solo branco, ali denominado “albariza”, extremamente calcário, que assegura alta maturação das uvas. Tais elementos estão reproduzidos na última salinha da adega – uma pedra de albariza num cesto produzido com esparto, uma espécie de sisal típico do sul da Espanha, que é utilizado para confeccionar as cortinas das bodegas daquele canto do país. São estas cortinas que permitem passar a brisa do mar e que criam as condições que marcam o Jerez. Para esquentar e entrar mais no clima, a música é La Oración del Torero, de Joaquín Turina, um som vigoroso, bem espanhol.

Não foi nesta minha recente viagem à Espanha – tema das últimas colunas – que fui ao Roca e me arrepiei com os cenários descritos acima, fazendo com que eu me lembre de cada detalhe quando vou a alguma das cinco regiões ali retratadas. No Priorato, desta vez, não seria diferente, mas, talvez pela sua proximidade com o nascedouro, eu quis ir mais fundo no sentimento: o som do carro estava armado para entrar o cello de Casals tão logo avistasse Gratallops, vilarejo em torno do qual estão alguns dos melhores produtores da região e cujas montanhas ao redor compõem com fidelidade a paisagem local. De quebra, isso acabou acontecendo num final de tarde fresco e ensolarado. O horário estava no programa, o céu limpo e a temperatura amena vieram de brinde, não foi premeditado.

Eu havia chegado pontualmente na hora do meu primeiro compromisso no Priorato, mais especificamente em Falset, a 15 minutos de Gratallops, um encontro com René Barbier Jr., onde ele e Sara, sua mulher, tocam um projeto próprio (e cuidam dos quatro ou cinco filhos, não entendi bem ou não contei direito), em paralelo às respectivas ocupações principais – ambos assumiram o dia a dia das aclamadas vinícolas dos pais, Clos Mogador e Mas Martinet (ver descrição na tabela). Na verdade são vários projetos, ou vários vinhos em várias frentes, ou… tudo junto: Bellvisos, branco e tinto, de uma vinha velha implantada em solo rochoso com forte inclinação, que só pode ser trabalhada com uma mula; Venus la Universal, vinhos de Monsant, uma D.O. vizinha; e o Viña del Vuit, cuja tradução literal “vinha dos oito”, mostra tratar-se de um vinho produzido em conjunto pelo casal mais seis amigos a partir de um vinhedo de 90 anos, basicamente de carignan, situado em Gratallops. Todos conduzidos com um rígido compromisso com a sustentabilidade, tanto no manejo das vinhas quanto na adega, estendendo-se à logística e distribuição. Com todo esse trabalho, os vinhos não poderiam ser óbvios nem simplórios. Tampouco lhes faltaria equilíbrio e identidade. São vinhos instigantes, com energia, reflexo claro do que seus mentores são na realidade.

Os vinhos de René_i_Sara não são distribuídos no Brasil, assim como os de alguns outros produtores anotados ao final da tabela publicada nesta página – os demais listados já estão presentes no mercado brasileiro e foram visitados neste recente roteiro ou provei seus vinhos à parte -, valendo por isso serem destacados, seja para chamar a atenção de quem tiver interesse em importá-los, ou para aproximá-los de bons apreciadores.

É o caso, particularmente, do Terroir al Limit, que o nome, longe de ser um mero apelo comercial, define bem. A receita (premiada) tem ingredientes semelhantes aos de Rene e Sara – instalações modestas, vinhas velhas, trabalho orgânico e ou biodinâmico numa busca constante às raízes -, com uma produção de apenas 25 mil garrafas por ano.

Economia e discrição, por outro lado, não fizeram parte do plano inicial da dupla Sergi Ferrer e Raul Bobet – Ferrer é dono do famoso (e imperdível) wine-bar Monvinic, em Barcelona, e Bobet foi enólogo durante muito tempo da Miguel Torres e é sócio também de um projeto vitivinícola interessante em Costers del Segre -, quando resolveram montar, em 2002, a vinícola que leva seus sobrenomes. A sofisticada e espaçosa bodega se projeta do meio de uma encosta, impressionando quem passa pela estradinha que liga Falset a Porrera. O dia da visita não era o mais indicado para degustação, segundo o calendário biodinâmico, e pode ter contribuído para que os vinhos não expressassem o que têm de melhor. De qualquer forma, as vinhas plantadas ao redor da sede, cerca de 20 hectares tratados organicamente, são novas e devem dar melhores frutos com o passar dos anos. Os dois outros rótulos, o Vinyes Velles e o Selecció Especial, produzidos com base em uvas compradas, não comprometeram, merecendo ser acompanhados num futuro próximo.

A Mas d’en Gil, por sua vez, já não precisa desse tempo. É uma propriedade histórica, com edificações antigas que foram caprichosamente restauradas a partir do momento em que o novo dono, Pere Rovira, profissional com larga experiência na área, assumiu. Dos 125 hectares, 40 hectares são ocupados pelas vinhas. Manejadas organicamente e seguindo métodos biodinâmicos, a área foi dividida em parcelas identificando terroirs diferentes, um conceito levado com muito carinho desde 2008 por Marta, a filha mais nova de Pere Rovira, que assumiu a função. Bom garimpeiro, Manoel Beato, sommelier do Fasano, já havia se encantado com os vinhos da Mas d’en Gil, tendo indicado sua importação na época da Enoteca Fasano.

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