Rioja 2014 – Apanhado dos produtores (final)

Jorge LuckiNas tantas viagens que tenho feito, é comum pessoas próximas me pedirem para trazer alguma “coisinha” que estão precisando. Nesta última, à Espanha, o pedido mais insólito foi o de Rodrigo Fonseca, um dos sócios da Premium Importadora, profundo conhecedor de vinhos e das pessoas com quem eu mais gosto de conversar sobre o assunto.

Sabendo de minha proximidade com Maria José López de Heredia, que comanda junto com os dois irmãos a venerada Viña Tondonia, em Rioja – foi ela quem organizou todo meu roteiro de visitas pela região, que incluía Valenciso, um dos produtores que a Premium está trazendo -, Rodrigo queria que eu tentasse conseguir informações sobre um tema que lhe intrigava muito (a mim também, na verdade): como os Tondonia envelhecem tanto tempo em barricas sem se oxidarem, “exceto, é claro, a ligeira oxidação, digamos, “controlada”, como ele mesmo ponderou.

Em suas profícuas andanças por Rioja, em busca de boas bodegas locais para incorporar ao seu já rico portfólio, Rodrigo Fonseca colocou a questão aos produtores com os quais teve contato, obtendo como única resposta “mais ou menos” convincente a suposição de que o envelhecimento se dá em barricas bem velhas, com poros saturados e com um mínimo de trasfegas, ou sem trasfegas. Isso limitaria a incorporação de notas de carvalho, as borras ajudariam a conservar o vinho, e a incorporação de oxigênio seria muito limitada. Faz sentido, mas o mesmo poderia ser feito – até é – por outras vinícolas, na ânsia de produzir vinhos semelhantes, o que ninguém consegue.

A rigor, nem Maria José tem uma resposta definitiva. Para ela não há segredo, é “só” uma somatória de detalhes, que, à distância, parecem óbvios: os vinhedos são próprios (170 hectares no total, divididos em parcelas – Viña Tondonia, o mais espetacular, destinado aos rótulos tintos e brancos que levam seu nome; Viña Cubillo; Viña Bosconia; e Viña Zaconia, que enseja o Gravonia branco), próximos à sede e zelosamente manejados pelo irmão, Julio; as uvas são trazidas para a bodega histórica, desengaçadas e fermentadas sem qualquer adição de leveduras em um dos mais de 70 grandes tonéis antigos (os brancos são vinificados em cubas um pouco menores), alguns da época da fundação, em 1877, seguindo depois para um dos mais de 14 mil barris de carvalho americanos usados – manutenção e produção por pessoal próprio – dispostos nas adegas subterrâneas, escavadas à mão, onde a temperatura e umidade são naturais e constantes ao longo do ano. A “crianza” nas barricas vai de 36 meses a 10 anos, com duas trasfegas anuais.

De fato, concretamente não há nada de “diferente” no processo. No entanto, percorrendo com vagar, atenção e silenciosamente aquele santuário, dá para sentir algumas fadinhas cochichando. Elas fazem parte do que se poderia chamar de “terroir de bodega”, uma complexa influência do ambiente onde o vinho é produzido, armazenado e envelhecido. É o que faz a diferença e vai continuar fazendo com que aqueles vinhos sejam únicos. Mérito total da família. Nenhuma vinícola guarda as tradições tão firmemente e com tanto orgulho como os López de Heredia. Mantendo-se na vanguarda. colaborador-jorge.lucki@valor.com.br

Leia mais em: http://www.valor.com.br/cultura/3670538/rioja-2014-apanhado-dos-produtores-final#ixzz3BhTPtXUr