Ribera del Duero 2014 – Pingus e Abadia Retuerta

Vista panorâmica dos vinhedos da Abadia Retuerta, com a sede da vinícola ao fundo

Não precisei dar maiores informações ao passar pelo controle de imigração do aeroporto de Madri nessa minha recente viagem à Espanha: quando eu disse que iria à Ribera del Duero, o agente sorriu e exclamou “buenos vinos”, carimbando em seguida meu passaporte. A mesma cena se repetiu mais duas ou três vezes até eu pegar a estrada rumo à primeira escala do meu roteiro de dez dias por algumas regiões vinícolas espanholas, começando com o programa em torno da celebração do sesquicentenário do Vega Sicilia, tema da coluna da semana passada.

Associar Ribera del Duero a grandes vinhos é um fenômeno recente. O Vega Sicilia carregou praticamente sozinho, por boa parte do século XX, a responsabilidade de representar a região. A rigor, impedir até mesmo que não desaparecesse, já que, até meados dos anos 1960, muitos vinhedos estavam sendo arrancados para o plantio de outras culturas então mais rentáveis. O prestígio internacional do Vega Sicilia e o nível de qualidade que o vinho ali atingia serviram para que alguns produtores ganhassem confiança suficiente para pressionar as autoridades espanholas no sentido de alçar a região à categoria de Denominação de Origem, o que permitiria atrair investimentos e a atenção dos consumidores.

A virada ocorreria alguns anos depois que a D.O. foi instituída (em 1982), tendo como grande responsável o influente – já naquela época – crítico americano Robert Parker, que, ao degustar o Pesquera Janus Gran Reserva 1982, o considerou como o “Château Petrus espanhol” e lhe concedeu 98 pontos. Em pouco tempo uma leva de novos vinhedos e bodegas surgiu, ensejando vinhos de estilos e qualidades distintos, sem uma linha definida que pudesse caracterizar um padrão “Ribera del Duero”.

A busca por potência e concentração levava muitas vezes a extrações excessivas com uma uva que, provenientes de vinhas novas, com clones de tempranillos de fora, ainda não adaptados às condições locais, não tinha aptidões para tanto, denotando não haver maturação fenólica à altura. Ao procurar esses extremos, cai-se na sobrematuração, que aporta notas passificadas e de evolução. No que diz respeito à madeira, em muitos vinhos faltava harmonia e integração da fruta com o conjunto, e os taninos secos da barrica se faziam excessivamente presentes.

Embora eu, pretensiosamente, discorde de Parker quanto à avaliação dada ao Pesquera – a comparação com o Petrus foi infeliz e 98 pontos é nota para o Petrus original, o que o Pesquera estava (e continua mais ainda) muito longe de alcançar -, devo admitir que o mérito do vinho de Alejandro Fernándes foi mostrar um “caráter Ribera”, sem os arroubos a que me referi logo acima. Robert Parker, no entanto, iria se redimir ao acertar algum tempo depois na avaliação do Pingus, este sim um grande vinho, que emplacou e é o vinho mais caro da Espanha, com preços que ultrapassam US$ 800 no mercado internacional. Pode-se questionar esse valor, que de fato é astronômico, mas não é fruto de um bem-sucedido plano de marketing, como eu mesmo considerei ao prová-lo pela primeira vez. Era da safra 1997, um ano fraco. Comecei a rever a impressão inicial quando provei o excepcional 98, e depois, conhecendo os bastidores e alguns vinhos dos anos seguintes, concluí que se trata de uma preciosidade.

Peter Sisseck, mentor do Pingus, é dinamarquês de origem e se mudou para Bordeaux, onde trabalhou mantendo-se próximo de seu tio, Peter Vinding-Diers (tio também de Hans Vinding-Diers, que dirige o Noemia, na Argentina, e o Argiano, em Montalcino), enólogo de renome por lá. Esses laços familiares levaram Sisseck à Ribera del Duero no início da década de 1990, para dirigir a Hacienda Monastério, que, apesar dos bons resultados, os sócios não quiseram continuar com o negócio e venderam a propriedade. Mesmo sendo mantido na função, a descontinuidade o aborreceu. Não fosse o comentário de Jean-Luc Thunevin, dono do Château Valandraud, um bem cotado Saint Emilion de boutique, Peter Sisseck teria desistido de sua aventura espanhola e procurado desafios em outro canto. Thunevin lhe perguntara por que, antes de desistir, não tentava produzir um grande vinho por lá. Afinal, a região tinha um vinho mítico, o Vega Sicília, e ele, bem ou mal, já conhecia o lugar.

Sisseck foi assim procurar um bom vinhedo para comprar e se encantou com uma parcela de menos de cinco hectares, situada nas colinas onduladas de La Horra e Rua, com parreiras plantadas havia mais de setenta anos. Não era só a localização e a idade das vinhas que o atraíram. Detalhista e observador, Peter Sisseck já percebera que a verdadeira tinto fino, uva que caracteriza os vinhos de Ribera del Duero, embora fosse comumente considerada a mesma tempranillo da região de Rioja, diferia desta pelo tamanho e forma de seus cachos. Aquele velho vinhedo era de tinto ino original, mais adaptada à maior altitude – 850 metros, contra 450 metros de Rioja – e, portanto ao clima local.

Com apenas uma pequena vinha, ele poderia se dar ao luxo de ter uma abordagem perfeccionista, como a poda de cachos irregulares para permitir aos remanescentes um amadurecimento consistente. Adepto da cultura orgânica desde o início, o Pingus foi conduzido desde 2000 segundo os preceitos biodinâmicos. Na adega, Sisseck fazia constantemente vários ensaios no sentido de aprimorar o vinho, não abrindo mão, porém, de uma triagem cuidadosa das uvas. Ele mesmo dizia que, às vezes, desengaçava (separar os bagos dos engaços) parte da colheita à mão, especialmente se havia sinais maturação desigual das uvas.

Ao vinificar sua primeira colheita em 1995, Sisseck já sabia que teria um bom vinho. Não imaginava, todavia, que fosse tão bom. Colocou as quase cinco mil garrafas no mercado por um valor correto, mas a repercussão dos comentários de Parker e de outros críticos levou seu preço às alturas. Isso tem se repetido na medida em que o vinho continuou confirmando suas qualidades e foi mesmo se aprimorando. É um vinho exuberante e generoso, sem perder a elegância, e com taninos finíssimos.

O dinamarquês Peter Sisseck, mentor do Pingus

O outro vinho da vinícola, o Flor de Pingus, nasceu no i nício dos anos 2000, atendendo aos apelos do importador americano, que queria um pouco mais de garrafas. Não se tratava de um segundo vinho, como é o modelo bordalês. As 60 mil garrafas produzidas anualmente provêm de 16 parcelas de vinhedos próprios, com vinhas velhas e jovens (plantadas a partir de matrizes selecionadas de tinto fino).

Em 2006, Peter Sisseck lançou um novo projeto com a finalidade de preservar as vinhas velhas da região, em vias de desaparecer pelo baixo rendimento que apresentam. Com a safra 2007, Sisseck lançou o PSI em colaboração com pequenos produtores, donos das parcelas. O vinho é vinificado numa ala á parte de uma cooperativa. Bela proposta e belos vinhos.

Dentre os novos projetos implantados na região no início da década de 1990, um dos que mais impressiona é o da Finca Retuerta, situado cerca de 15 quilômetros do Vega Sicilia, em Sardón del Duero (fora, mas vizinho da Denominação de Origem Ribera del Duero) e que pertence à Novartis, um dos maiores grupos farmacêuticos do planeta. A área de 700 hectares fora comprada pela Sandoz (cuja fusão com a Ciba Geigy originou a Novartis) em 1988 sem qualquer plano de desenvolver atividade vitivinicola. A história da propriedade pesou: o que então era uma velha abadia semidestruída, havia sido o Monasterio de Santa María de Retuerta, com registros indicando construções do século XII e intenso cultivo da vinha. Outros documentos atestam que, por volta de 1800, seus vinhos eram vendidos diretamente pelos monges e dominavam o mercado de Valladolid, então a maior cidade da província. Havia ainda vestígios recentes de parreiras, que haviam sido arrancadas pelos donos anteriores entre 1968 e 1980.

A ideia de retomar a antiga vocação vinícola veio da amizade de Javier Brugué, presidente do Grupo Novartis na Espanha, e Joan Josep Abó, advogado internacional e membro da Académie Internationale du Vin.

Seguindo um plano detalhado, iniciado com análises do solo e do microclima, a partir de 1991 foram plantados 205 hectares de tinto fino, cabernet sauvignon e merlot, além de outras variedades experimentais. Eles se estendem pelos dois lados da N122, estrada que liga Aranda del Duero e Valladolid. A sede, situada na parte de baixo, já margeando o rio Duero, inteiramente restaurada, abriga desde 2012 um hotel boutique, com apenas 18 quartos, que integra a cadeia Relais & Châteaux.

Para dirigir tecnicamente a bodega, na qualidade de consultor, foi convidado Pascal Delbeck, então enólogo responsável pelo célebre Château Ausone, Premier Grand Cru Classé de Saint Emilion. Foi dele o conceito da monumental adega, construída em 1996 com 10 mil m2, onde tudo funciona por gravidade e é rigorosamente controlado.

Os resultados desse trabalho apareceram de imediato e foram muito elogiados, tornando-se referência em pouco tempo. A gama Abadia Retuerta era relativamente extensa e comportava oito rótulos, indo desde o Primicia e o Rivola, até uma dupla de vinhos premium, produzidas de parcelas especiais, quantidades limitadas e só lançados em anos bons, os Pagos Negralada e Valdebellón – o primeiro é 100% tempranillo e o segundo, um puro cabernet sauvignon -, vindo depois o PV, um petit verdot, e o Pago Garduña, à base de syrah. Mais recentemente todos os vinhos da linha média foram reunidos para formar um único rótulo, o Selección Especial, carro-chefe da vinícola que chega a mais de 450 mil garrafas por ano.

Na ânsia de provar o maior número possível de vinhos de Ribera del Duero durante os três dias que passei na região, preferi deixar de visitar algumas vinícolas, até porque várias delas eu já conhecia. Achei que era mais proveitoso me atualizar, e, para tanto, contei com alguma ajuda do sommelier do restaurante Refectorio, situado no hotel da Abadia Retuerta e que tem a consultoria de Andoni Luis Anduris, estrelado chef da região de San Sebastián.

Destaques: Pago de Carraovejas, como sempre, com extensão para os vinhos de Tomás Postigo, seu antigo enólogo, agora em voo solo (está sendo trazido pela Premium); Mauro, de Mariano Garcia, ex-enólogo do Veja Sicilia (até 1998); Sastre, apesar de um pouco “over extracted”; Dominio de Atauta, também como sempre; e Emilio Moro. Sem querer dar uma visão negativa, eu esperava mais do Legaris, projeto da poderosa Codorníu e que ainda não decolou; Pesquera; Neo, um projeto novo, com vinhos “troppo” modernos; e María Alonso del Yerro e Aalto, ambos muito maduros, estilo Novo Mundo.

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