René Barbier, um ‘hippie’ visionário no Priorato

foto04est-101-col_jlk-d4Num universo tão tradicional quanto o do vinho, as transformações são lentas e vistas com desconfiança, fazendo com que seja muito raro surgir algum fato novo que consiga em pouco tempo mexer com o cenário, ocupar espaço de forma irreversível e permanecer. Isso aconteceu com a região do Priorato, na Catalunha, no início da década de 1990, a ponto de logo obter o status de Denominación de Origen Calificada (DOCa), patamar que só a renomada Rioja ostentava na Espanha.

Como região vitivinícola, o Priorato existia, mas estava abandonada. As videiras fazem parte da paisagem local desde o tempo dos romanos, começaram a ganhar corpo com os monges do monastério cartuxo de Scala Dei, construído em 1163, e atingiram o auge nos séculos XVIII e XIX, quando seus vinhos chegaram a ser exportados. Com o fechamento do convento e a expulsão dos monges em 1835, seus vinhos entraram em declínio. Cada vez menos gente se interessava em trabalhar em condições tão inóspitas. Na região, toda montanhosa, os vinhedos são plantados em encostas íngremes e solo de pobre com formações rochosas, circunstâncias que dificultam enormemente o trabalho. Elas continuam exaustivas. O que mudou foi a constatação que dali era possível extrair vinhos de primeira grandeza, havendo sempre interessados em comprá-los, ainda que tenham de pagar algo mais por eles.

O grande responsável por esse renascimento foi o cativante René Barbier, que, no melhor estilo hippie dos anos 1970, conseguiu reunir um grupo de abnegados dispostos a se entregar em torno de um sonho. Ao saber que ele vinha para o Encontro da Mistral, importadora que representa seus vinhos no Brasil há muito tempo, marquei para entrevistá-lo. Isso foi em maio deste ano. A conversa foi tão boa e o convite para revisitar a região foi tão irrecusável – eu iria estar na Espanha em julho e tive de mudar e estender o roteiro, percorrendo mais 900 quilômetros – que guardei o assunto para a minha volta (o tema Priorato continua na semana que vem). A seguir alguns trechos da entrevista, contando como tudo aconteceu e um pouco da forma de pensar de René Barbier.

Valor: Há um distintivo com a bandeira da França na sua lapela. Você é francês?

René Barbier: porque prefiro falar (com o público do Encontro da Mistral) em francês do que em espanhol. Ou em catalão, o que, imagino, não vai ter ninguém aqui que queira. Sou de origem francesa, mas meu pai nasceu na Espanha e minha mãe é catalã, e meu avô se casou com uma catalã. Então, claro, sou muito mais catalão. Mas eu me casei com uma francesa (risos). Minha família está no ramo vinho há muitas gerações e foi meu bisavô Léon Barbier que veio para a Espanha na época do filoxera. Ele criou uma “maison de négoce”, a René Barbier, nome do meu avô, em Tarragona, para comprar (vinhos) garnachas e carignans que não existiam mais no sul da França por causa da filoxera, mas manteve a propriedade em Vaucluse (no sul do Vale do Rhône), onde inclusive cheguei a trabalhar nos vinhedos quando tinha 18 anos. A família se dividiu em duas; a parte francesa e a parte espanhola, sobretudo por que após a filoxera houve as guerras mundiais, a revolução espanhola, e havia uma alternância na família; quando algo ia mal de um lado, eles vinham para o outro (risos).

Valor: Foi onde você começou a trabalhar com vinho?

Barbier: Não, conheci o fim da Maison Barbier. Meu pai morreu jovem, aos 50 anos, em 1973, época em que eu estudava enologia em Bordeaux, e dois anos depois uma empresa franquista – a justiça era “meio relativa” durante a ditadura de Franco – a absorveu. Tempos depois a Freixenet acabou ficando com a marca René Barbier por uma peseta. Por outro lado, meu tio que havia herdado a parte francesa, se arruinou e perdeu tudo. Tanto de um lado como de outro, tudo foi por água abaixo depois de gerações. Quando terminei meus estudos fui trabalhar na vinícola do pai e do irmão mais velho de Álvaro Palácios, que havia estudado comigo. Na época eles vendiam vinho no atacado. Nós criamos junto a Maison Herencia Remondo, onde eu comecei também a vender. Ao mesmo tempo, por volta 1978, com o meu sogro, compramos, porque eu adorava, uma terra no Priorat.

Valor: O Priorato não era muito conhecido na época.

Barbier: Nem um pouco, mas era um lugar magnífico. Eu era muito influenciado pelo que se passou em 1968, quando eu tinha 18 anos, e queria um lugar que não fosse contaminado, que não estivesse no sistema e que nós pudéssemos levar uma vida diferente. Graças a isso também, eu não tive problemas psicológicos por causa da ruína da minha família. Ao contrário, tinha o sentimento de liberdade e nós pudemos começar algo ao mesmo tempo em que eu trabalhava na Rioja. Enquanto isso, eu fazia o meu vinhedo e como era um local perdido, eu convidava meus amigos para formar uma ‘comunidade’. Pouco a pouco eles também compravam um vinhedo. Um vinhedo não, um terreno. Nós começávamos tudo do zero. Havia água e uma horta e isso era o principal. Foi em 1979. Começamos a instalar a energia solar para termos luz etc., galinhas, coelhos. Fizemos todo um trabalho de coplantação (parreiras de variedades distintas que são plantadas aleatoriamente na mesma parcela) com velhas vinhas abandonadas, conseguindo revivê-las. Foi o que tornou o lugar especial, diferente de tudo. Somente dez anos depois é que pudemos fazer a primeira colheita. Juntamos as uvas de todos e elaboramos um vinho conjunto que foi dividido e cada um colocou o nome de sua propriedade.

Valor: Quem fazia parte do grupo?

Barbier: Na época havia pessoas que eventualmente não continuaram por que tiveram problemas pessoais ou financeiros. Um deles, por exemplo, ficou doente e Álvaro Palácios comprou sua propriedade, a Finca Dofi, que, portanto, tem vinhas anteriores à sua entrada. Foi o caso, também, de Daphné Glorian, uma suíça que eu e Alvaro conhecemos numa feira de vinhos. Ela se encantou com a nossa história, vendeu tudo o que tinha e comprou o que viria a ser o famoso Clos Erasmus (está casada com o renomado importador americano, Eric Solomon, que a conheceu numa de suas visitas à procura de vinhos da região). Um dos primeiros do grupo foi Josep Lluís Pérez, que havia chegado à região para ocupar a direção da recém-criada escola de enologia em Falset (sua filha Sarah, enóloga, viria a se casar com o filho de René Barbier, com quem tem cinco filhos e comanda o Mas Martinet). Tem ainda o Carles Pastrana que era artista e havia feito espetáculos com minha mulher, mas que vinha nas colheitas nos ajudar; quando se casou, seu sogro também gostou do lugar e comprou vinhas e ele acabou no meio de tudo isso (risos). É meu vizinho, dono do Clos de l’Obac.

Valor: É o grupo chamado de “Big Five” pelos americanos.

Barbier: Esse foi o meu percurso. Por um bom tempo, não havia nenhum banco que emprestasse dinheiro a loucos como nós. Precisávamos realmente trabalhar para conseguir alguma coisa. E para te dar uma ideia, Álvaro Palácios, que era de uma família de posses, saiu de casa para trabalhar conosco. Sua família, que me adorava, ficou zangada por que eu o havia influenciado. Era realmente uma ousadia pegar o seu filho mais novo e enchê-lo com ideias loucas de hippies malucos. Álvaro não era um hippie. Era um aventureiro, no bom sentido. Nós sonhávamos muito e estes sonhos foram aos pouco se tornando realidade. Mas ele dizia sempre: ‘Você é o filósofo e eu o marketing!’

Valor: Como e quando os vinhos começaram a ficar realmente conhecidos?

Barbier: Tivemos sorte. Eu fazia algumas degustações de Rioja e numa delas, em Paris, Alvaro estava comigo. Já tínhamos nosso 1989 que nem estava engarrafado, e o levávamos num odre, que bebíamos e, por educação, oferecíamos para quem estava ao lado. Um mês depois recebi um telefonema, de um tal de Pierre Chrisol, do guia Gault et Millau, querendo nos visitar. Imaginei que era sobre o Rioja e propus que nos encontrássemos em Logroño. Ele se referia ao nosso vinho. Mesmo eu dizendo que não tínhamos nada para mostrar, ele disse que queria vir. Nós havíamos alugado um galpão, que era uma granja de carneiros, onde fazíamos o vinho com alguns toneis que o Álvaro vendia; era tudo. Sete ou oito meses depois saía a edição especial sobre a Olimpíada de Barcelona 92, que falava dos melhores restaurantes e dos melhores vinhos, o nosso entre eles.

Valor: O vinho já estava engarrafado?

Barbier: Não! Era realmente o início. Tivemos que fazer um esforço, fazer um empréstimo pessoal para poder comprar as garrafas e legalizar um pouco as coisas. Depois era preciso estabelecer um preço. Na época, o pouco que existia de prioratos, dos apenas 300 hectares plantados (hoje há perto de 1.900 hectares), era vendido por negociantes por 40 pesetas o litro e nós tínhamos, com tudo incluído, custos muito altos. Decidimos que se não fosse vendido a 1.500 pesetas a garrafa não valia a pena. Antes, porém, era preciso saber se valia isso. Eu me lembro de que peguei o trem e fui à Paris encontrar um sommelier, que trabalhava no restaurante Faugeron e havia ganhado o campeonato mundial em 1986. Ele se chamava Jambon.

Valor: Sim, Jean Claude Jambon.

Barbier: Exatamente, e se você o conhece é genial porque foi meu primeiro teste. Só que o restaurante tinha duas estrelas pelo Michelin e eu não tinha dinheiro para pagar. Liguei para um amigo, Claude Lévy, que era dono de uma importadora de vinhos, Vinespa, e lhe disse: ‘Você paga o jantar por que eu não tenho dinheiro. Mas se vendermos, você será o importador em Paris, certo?’. Fomos jantar, levando três garrafas sem etiqueta, e eu perguntei ao sommelier: ‘O senhor se incomodaria de provar um vinho? Nós gostaríamos da sua opinião’. No fim do jantar ele me diz: ‘Qual o seu preço?’ Eu disse 1.500 pesetas. E ele respondeu: ‘O senhor vai me explicar a sua história, mas enquanto esperamos eu quero três caixas’. Foi o meu primeiro cliente e Claude Lévy se tornou o meu importador.

Valor: Em dólares, quanto isso representava?

Barbier: É complicado fazer as contas, mas acho que deveria ser em torno de US$ 15, o que era uma fortuna. Para mim, ele valia isso. Todos nós tínhamos medo de vendê-lo a esse preço. Começamos assim. Vendemos àquele restaurante parisiense e ao elBulli, de Ferran Adriá, depois apareceu um japonês, que queria comprar toda a produção, e uns suíços que continuam sendo grandes clientes. Logo conheci Christopher Cannan, dono da Europvin, que depois de provar perguntou se podia mostrar a um amigo. Era Robert Parker, de quem eu nunca tinha ouvido falar. Tudo o que eu sabia é que a partir daquele momento nós começamos a ter crédito nos bancos por que, evidentemente, Parker ajudou muito a divulgar e o projeto começou a se tornar realidade. Pudemos então expandir.

Valor: Cannan, que sempre teve uma relação muito forte com o Priorato, hoje tem seu próprio vinho e vocês têm sociedade num vinhedo, não?

Barbier: Com Christopher há uma relação fantástica. Em um determinado momento, ele e sua empresa quiseram investir na região e eu ajudei. A Europvin montou o projeto Laurona, em Montsant, e Christopher criou o Clos Figueras. Através do Laurona, eu conheci vinhedos muito bonitos e houve um que eu adorei e disse que ali se poderia fazer algo especial. Como foi pelo Laurona que eu descobri, fizemos juntos o Espectacle. É um vinhedo de três hectares só de garnacha com parreiras de 120 anos. Ele se chama Espectacle por que ao chegar lá todos exclamam: ‘Que espetáculo!’ A ideia era fazer um vinho anti-Parker, sem passar por barricas, diferente do Mogador, um vinho mais delicado. Não íamos apresentá-lo a nenhum jornalista, somente a sommeliers e cavistas. Acontece que um sommelier do Texas, amigo de Christopher e meu, recebeu um dia Robert Parker e disse: ‘Vou fazer você descobrir algo que você não conhece.’ E lhe deu o Espectacle para provar. E eu que queria fazer um vinho anti-Parker recebi 99 pontos do próprio Parker! (risos).

Valor: Onde o Espectacle é vinificado?

Barbier: Produzimos na Laurona porque é fácil, o Espectacle é o vinhedo. Na verdade tudo que fazemos é ter uma cuba de madeira. Vinificamos e amadurecemos na mesma cuba, de 3,5 mil litros. Como se trata de um vinho de um vinhedo muito antigo, que está a quase 900 metros de altitude, não se pode fazer aportes de madeira. É preciso deixa-lo como é, o que é uma vantagem. É um trabalho de viticultor. É a única coisa velha que é rentável para mim (risos). É incrível, é um milagre. Trata-se de um vinhedo que, após cem, cento e vinte anos tem só 6% de falhas. Lá, cada parreira dá uma garrafa enquanto que em Mogador, com vinhas que possuem uma média de 30 anos, é preciso de um a três pés para se fazer uma garrafa. Em Manyetes, que é um vinhedo de carignan de 60 anos, é preciso de sete a oito parreiras para se fazer uma garrafa. E olhe lá!

Valor: Qual é a diferença entre os terroirs?

Barbier: São completamente diferentes, tudo é diferente. Em Priorat temos o xisto e em Mogador, temos, vamos dizer assim, três tipos de xisto diferentes: são xistos um pouco argilosos, existem xistos com mais teor de ferro e um xisto um pouco mais calcário. A pluviometria no Priorato é de 300 mililitros por ano, em Manyetes ainda menos e em Espectacle é de 800 mililitros por ano. E isso muda completamente. Em termos de solo, Montsant tem muito mais de calcário, uma riqueza de solo muito mais importante e ainda há a pluviometria. O que também ajuda é o fato de sermos rodeados de florestas, o que impede doenças vindas do exterior além de uma grande biodiversidade que também mantém enormemente o lado saudável do vinhedo.

Valor: As vinhas são enxertadas?

Barbier: Algumas foram, logo após serem atacadas pela filoxera, e existem outras, um décimo, que são pré-filoxera. São vinhas que nunca foram abandonadas, foram sempre cuidadas. Quando houve a filoxera, as parreiras que estavam mortas foram substituídas, mas não as que estavam sãs. É por isso que existem vinhas de mais 100 anos.

Valor: Você acabou de falar de Espectacle, que é 100% Garnacha, e Manyetes, que são vinhas de Carignan. Como você vê estas duas variedades? Porque há produtores que gostam de Carignan e outros que gostam mais de Garnacha?

Barbier: É um assunto realmente apaixonante. É uma questão de terroir. Se tomamos o Manyetes como exemplo, plantar só Garnacha seria uma loucura. É um terreno pedregoso, de rio, o que o faz produtivo. Em Mogador o solo é pobre, mas equilibrado, tem um pH muito bom. Quando as Garnachas estão em altitude e são limítrofes, como o Espectacle, é magnífico. É por isso, claro, que antes da filoxera, estes locais eram multivarietais. Usava-se uma grande diversidade de castas que se completavam e davam finesse aos vinhos. A Garnacha com alguma companhia tem uma riqueza sem limites, e podemos fazer algo muito bom.

Valor: No passado todos os vinhedos eram coplantados?

Barbier: Sim, e havia dezenas de variedades tintas e brancas. Embora a legislação das Denominações de Origem impeça – e ninguém ousa discutir -, o caminho é voltar a isso. O que mudou desde a a filoxera é que nos tornamos viticultores muito ruins e enólogos muito bons. A monocultura realmente empobreceu a qualidade dos vinhos. Saber ser um enólogo é um grande passo, mas esquecer-se de ser viticultor é um passo para trás. Por economia, adaptamos as vinhas aos tratores. Pessoalmente, faço vinhos extremos como Manyetes, como Espectacle, mas em casa, que é o paraíso do vinho, utilizo variedades distintas. Em Mogador, há muitas castas diferentes coplantadas – só o cabernet sauvignon, introduzido pelo Josep Lluis Pérez, está separado -, o mesmo acontece com o Nelin.

Valor: E a questão de ter bom grau de maturação da uva? Como escolher o momento da colheita?

Barbier: Ah, isso é o mais importante, é realmente fundamental. Pessoalmente, eu só faço isso. Eu não faço a colheita, não estou lá na adega. Não faço nada durante a época da vindima a não ser provar as uvas. Só isso. Dois meses e meio provando uvas. Meus filhos estão no vinhedo e na vinificação. Claro que está aí todo o segredo. A uva é um fruto e é preciso saber escolher. No início, o fruto está muito florido, porém está muito ácido, e há outro momento onde o fruto exprime bem o terroir, e há ainda um outro momento em que a uva está para mais para a compota, a sobre maturação. Essa terceira fase é boa… para vinhos doces.

Valor: Você utiliza uvas em diferentes estágios de maturação?

Barbier: Exatamente. É isso o que eu faço. Eu jogo com isso… e assim eu consigo fazer vinhos que têm um DNA, e que possuem uma certa tensão, que evocam a finesse do Mogador e do Nelin. Ambos estão cada vez mais finos por que eu aprendo cada vez mais sobre isso. No Mediterrâneo podemos fazer coisas magníficas. Quero dizer, enquanto você vai às regiões limítrofes. Em Espectacle não posso colher uvas maduras. Em novembro, chove e acabou! Mas apesar de tudo eu tenho 16 graus!

Valor: Então, finalmente, quando se fala em assemblage de Mogador, estamos dizendo 40% de garnacha, 20% de carignan, 15% de syrah, de cabernet sauvignon. Isso é o vinhedo? E a ficha técnica?

Barbier: É o vinhedo que é assim. Eu nunca sei essas proporções. É minha mulher que faz. Está sempre escrito porque elas são sempre diferentes. Não é porque eu faço uma mistura de vinhos diferente a cada ano, mas porque o vinhedo é assim. Há anos em que há mais Garnacha, há anos que há mais Carignan, há anos que tem menos Syrah. Depois, minha mulher fez a ficha técnica. Felizmente, por que é ela que sabe (risos). E no Nelin ainda mais. O Nelin é uma loucura. Antes eu contava tudo, mas agora não digo nada senão arranjo problemas enormes porque a D.O. diz que não pode. Não é por mim, mas temos agora um consórcio europeu que vem todos os anos fazer um acompanhamento e, felizmente, eles não entendem nada de viticultura.

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