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Quinta Vale Dona Maria, uma joia no Douro

Não há nada melhor do que uma degustação abrangendo várias safras de um mesmo vinho – a chamada degustação “vertical” – para se traçar um perfil bem nítido dele. As características de seu terroir, seu comportamento diante das variações climáticas ano a ano, a evolução ao longo do período e, especialmente, independente dos humores do clima, sua consistência. Com efeito, nenhum vinho pode aspirar ao título de “grande” se não tiver consistência, e esse é um dos aspectos que levou o Quinta Vale Dona Maria, um dos melhores tintos do Douro da atualidade, à posição de destaque que ostenta no cenário vinícola de Portugal e o reconhecimento alcançado em importantes mercados internacionais.

Tudo isso foi motivo de sobra para gerar ansiedade quando o esfuziante grandalhão Cristiano Van Zeller, proprietário da vinícola, acenou, já no ano passado, com a possibilidade de organizar pela primeira vez uma vertical completa de seus vinhos, o que acabou se efetivando três semanas atrás. O local e a época tinham de estar condizentes com o acontecimento: no Douro – a degustação foi no Aquapura, hotel boutique instalado numa antiga quinta às margens do rio, toda restaurada por fora e design moderno internamente – e em plena fase de colheita, com dias ensolarados.

A história dos rótulos com a denominação Quinta Vale Dona Maria começou em 1996, e tem a ver com o início da ascensão dos vinhos de mesa na região que, até então, era conhecida mundo afora pelos vinhos do porto. Não foi mera coincidência, Cristiano teve decisiva participação nesse processo. Sua família detinha a renomada Quinta do Noval e ele ficou lá trabalhando por três anos após a venda ao poderoso grupo francês AXA, do setor de seguros, em 1993. Ao sair, resolveu se dedicar ao desenvolvimento dos vinhos do Douro, tanto de mesa quanto portos, mas se direcionando às quintas privadas, que precisavam se fortalecer e criar projetos que fossem economicamente rentáveis, o que àquela altura não existia. O que havia era uma divisão clara entre produtores e negociantes. Os primeiros cultivavam suas vinhas, elaboravam o porto e o vendiam para as grandes casas mesclarem e comercializarem.

No fundo, o que se pretendia era mesmo avançar com os vinhos de mesa, não só por ter dado provas anteriormente, através do mítico Barca Velha, que a região tinha potencial para brilhar nessa área, mas também para dar algum aproveitamento à enorme quantidade de uvas de boa qualidade que, não sendo aproveitadas para a produção de porto – chegava a 50% (!) -, eram desperdiçadas, já que serviam para fazer vinhos imbebíveis ou transformados em aguardente de baixa qualidade.

A primeira iniciativa de Cristiano foi procurar Jorge Roquette, amigo de família de longa data e dono da Quinta do Crasto, propondo começar um projeto independente, que, como se sabe, tornou-se com os anos um caso de sucesso. Não demorou para que outros amigos, os Ferreira, da Quinta do Vallado, pedissem ajuda para dar a largada a algo semelhante.

Ao mesmo tempo, ainda em 1996, surgiu a possibilidade de tomar posse da Quinta Vale Dona Maria, que pertencia à avó de Joana, esposa de Cristiano, e que estava arrendada ao renomado Grupo Symington. Embora a antiga adega estivesse em ruínas, o vinhedo, composto por vinhas velhas de comprovada qualidade – supostamente, dali já tinham saído alguns dos melhores portos da Smith Woodhouse, marca pertencente aos Symingtons -, estava em ótimo estado, o que permitiu a Van Zeller ter tempo de fazer sua primeira colheita, que foi vinificada de forma experimental, mais com o objetivo de conhecer melhor o vinhedo, na Quinta de Nápoles, de Dirk Niepoort. As 2 mil garrafas produzidas não foram comercializadas. Participaram da atual degustação, não mostrando o mesmo equilíbrio que se notaria nos seguintes, mas de forma nenhuma descartável.

Ainda sem ter recomposto as antigas instalações que outrora serviram para elaborar os vinhos da propriedade, as quatro colheitas seguintes foram vinificadas na Quinta do Crasto e parte da última na Quinta do Vallado, tendo já demonstrado clara evolução e noção do terroir, em particular as de 1999 e 2000, que se mantêm vivas e com bons taninos. É, no entanto, a partir de 2001, com a adega pronta e os lagares restaurados, que os vinhos ganharam mais expressão e um estilo bem definido que se repete num crescendo até hoje.

Nessa altura da prova, Cristiano, que fazia esporadicamente um histórico do que se passara na época, comentou a entrada da enóloga Sandra Tavares da Silva como estagiária em 1999 em caráter temporário depois de ter terminado seu mestrado em enologia. O que deveria ter sido apenas um breve estágio para atender a um pedido de amigo, acabou se efetivando, para sorte do projeto. Sandra logo demonstrou seus dotes profissionais, impondo um estilo refinado aos vinhos, marca registrada dos vinhos Quinta Vale Dona Maria. Um dado extra, ainda que mais recente, serve para testemunhar sua capacidade e diz respeito aos chamados Douro Boys, cinco produtores que se juntaram, no início da década de 2000, para promover seus vinhos de forma coletiva: Niepoort, Quinta do Vale Meão, Quinta Vale Dona Maria, Quinta do Vallado e Quinta do Crasto. Na verdade esse agrupamento é resultado de anos de convivência e de ajuda recíproca, de compartilhamento das mesmas ideias e conceitos.

Guardadas suas individualidades, mas ressaltando tratar-se de um grupo no sentido amplo da palavra, os Douro Boys lançaram um vinho em conjunto, o Cuvée 2005. Foram produzidas 500 garrafas magnum, vendidas num leilão realizado pela Christie’s no final de 2007. Para sua elaboração cada um dos cinco produtores selecionou duas barricas, cujas amostras foram utilizadas pelos enólogos das vinícolas para que cada um compusesse seu “blend”. Votado em degustação às cegas pelos membros do grupo, ganhou preferência o proposto pela enóloga do Quinta Vale Dona Maria, Sandra Tavares da Silva.

Com time entrosado, melhor conhecimento das nuances do vinhedo e adega pronta, os vinhos Quinta Vale Dona Maria que se seguiram a 2001 reservaram ótimas surpresas, começando logo com 2002 e 2003, dois anos difíceis em função de condições climáticas extremas e antagônicas: o primeiro se caracterizou por um período bastante chuvoso na época da colheita, do qual se poderia esperar um vinho diluído, e o segundo por uma calor inusitado, que tenderia a ensejar tintos extremamente maduros e grau alcoólico elevado. Nada disso aconteceu. Ambos demonstram, mais uma vez que é nos anos difíceis que se conhece um bom produtor. A qualidade do terroir e um bom trabalho no campo permitiram atingir surpreendente padrão de qualidade, e condizentes com as características que as condições da safra determinavam: o 2002 com boa fruta fresca, frescor e corpo compatível, compondo um conjunto mais delicado; e o 2003, sem dúvida mais intenso, sem pecar, porém, por excessos, e apresentando taninos bem integrados.

Tanto esforço e aplicação foram recompensados em 2004, ano climaticamente favorável em todo o seu desenrolar, o que permitiu obter um vinho que beira a perfeição: aromas vivos, com notas de esteva (planta típica da região), e uma boca plena, com profundidade e taninos finos, tudo em harmonia. Para mim a estrela do dia. Sem a mesma complexidade, mas vivaz e sedutor, o 2005 não destoa, o mesmo acontecendo com o 2006, embora com um perfil diferente, mais austero. A delicadeza, com determinação, volta em 2007, que mescla, um estilo feminino e elegante com boa estrutura e linearidade em boca, que o coloca também como um dos destaques da degustação.

A trinca final, 2008, 2009 e 2010, normalmente disponíveis – já ou em breve – no mercado, mostram compreensivelmente mais vigor e jovialidade, devendo ganhar complexidade com mais tempo de garrafa. Mas já mostram suas virtudes, em particular o 2009, mais gordo e masculino, com boa trama tânica e profundidade, o que o 2008, embora não comprometa, não atinge por características da safra. O último da série, o 2010, pode surpreender por estar tão harmônico e prazeroso, mas presume-se que isso se deva ao fato de ter sido engarrafado há pouco tempo – três semanas, conforme foi informado. Com todo o potencial demonstrado, ele deve entrar numa fase introspectiva para depois voltar a se mostrar de fato. Promete.

A Quinta Vale Dona Maria conta hoje, como um todo, com 40 hectares de vinhas, das quais 14 hectares se compõem de parreiras com mais de 60 anos e são, junto com mais seis hectares de vinhas velhas a base do vinho principal da vinícola, que se traduzem em cerca de 25 mil garrafas por ano. Outra área de vinhas velhas, arrendadas em 2003, é responsável pelo outro rótulo de ponta do projeto Van Zeller, o CV, do qual são produzidas em torno de 6 mil garrafas anualmente, com preço sensivelmente superior. Isso se explica, segundo Cristiano, não só pela escassez na oferta, mas também por ter sido colocado no mercado quando os preços de seus congêneres estavam nesse patamar, o que ele não poderia mais fazer com o Quinta Vale Dona Maria propriamente dito, colocado no varejo numa época em que a conjuntura era “menos pretensiosa”.

Ainda que o argumento seja válido, a rigor a qualidade não justifica a diferença de preço entre os dois. Em todo caso, o CV tem, além de preço diferente, um estilo próprio, mais robusto, como ficou evidente ao longo da degustação vertical de oito vinhos – 2003 a 2010 – servida logo após a do Quinta Vale Dona Maria. Submetidos às mesmas influências climáticas que seu irmão mais velho, o CV o acompanhou em termos de expressar as vicissitudes do clima ano a ano, com sutis diferenças. Daí despontarem o 2007 e o 2010 como os dois melhores da série.

Para finalizar a agradável (e pouco cansativa) maratona, faltava provar os vinhos do porto, que Cristiano insiste – no bom sentido – em fazer, em atenção ao que ele representa e sempre representou para a região. Foram, igualmente, oito amostras, 1999, 2000, 2001, 2002, 2003, 2005, 2007 e 2009, demonstrando que nem todo ano se presta para produzir vintages. E a safra faz toda a diferença: comprovando a tese que os “verdadeiros” portos vintages não passam de três em média por década, 2000 e 2003, estavam num patamar muito superior aos demais, com o 2007, dentro de um perfil mais feminino, um pouco abaixo.

Os vinhos da Quinta Vale Dona Maria são representados no Brasil pela Vinho Sul, que não vende direto ao consumidor. Para informações onde encontrar contatar o importador o telefone é (11) 3507 7390; www.vinhosul.com.br.

Apenas como parâmetro, os preços dos vinhos então na faixa de:

CV: R$ 499,83; Quinta Vale D. Maria: R$ 156,50; Porto Quinta Vale D. Maria Reserva: R$ 76,50; Van Zeller Douro Tinto Reserva: R$ 87,63; Van Zeller Porto 10 Anos: R$ 116,50; Van Zeller Rufo Tinto Douro: R$ 66,50.

colaborador-jorge.lucki@valor.com.br

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