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Piemonte para além de barolos e barbarescos

Apesar de meio escondido e com aparência meio mal ajambrada, o espaço habitualmente ocupado pelo Consorzio Langa In no fundo do pavilhão nove da Vinitaly vive cheio. Não é só pelos grissini, formaggi e salumi que circulam livremente. Quem vai lá é pelos vinhos, uma bela seleção de rótulos elaborados por 19 produtores, entre bons e ótimos, de três regiões do Piemonte – Langhe, que abrange as celebradas zonas de barolo e barbaresco, Moscato e Roero – que uniram esforços para promover suas ideias e produtos mundo afora. No fundo, deixando de lado Monferrato, área reconhecida pela qualidade de seus barberas (barbera d’asti e barbera del monferrato), praticamente o que existe de melhor dentre as áreas vitivinícolas do Piemonte está representado no Langa In. Um evento bem representativo do que o Consorzio tem de bom para apresentar foi realizado em São Paulo na semana passada, reunindo vinhos de 13 de seus produtores, vários deles presentes.

Vale, antes de mais nada, lembrar que, embora barolos e barbarescos sejam os vinhos piemonteses mais aclamados, outros rótulos têm lugar de destaque no cenário vinícola local. A começar pelo nebbiolo d’alba, produzido com a mesma uva dos nobres congêneres. Se não tem a mesma complexidade, é um bom primeiro passo para chegar neles. Colocado no mercado um ano após a colheita, mantém as características varietais e necessita de menos tempo para ser consumido.

Mudando de canal, um vinho que ganhou incrível prestígio nos últimos 15 ou 20 anos é o produzido com barbera, de há muito uma das uvas mais cultivadas na região, que, por ser empregada em vinhos correntes, ninguém lhe dava grande atenção. A virada se deve a Giacomo Bologna, produtor que acreditou que aquela casta, de parreiras quantitativamente generosas, com pouco tanino e acidez pronunciada, poderia, se bem conduzida, propiciar um bom vinho. Controlando o vigor e diminuindo drasticamente o rendimento das vinhas, conseguiu controlar a acidez e ganhar um prazeroso sabor frutado, contornado por taninos leves e agradáveis. Bologna contrariou ainda as tradições piemontesas, fazendo vários testes em barris de carvalho – no Piemonte, como na Itália em geral, era praxe (ainda é) utilizar tonéis de maior capacidade (ali chamados de botte, no plural botti) -, concluindo que o estágio em madeira nova acrescentava riqueza e profundidade. O resultado de suas experiências foi lançado em 1982 com o nome de Bricco dell’Ucellone, que entrou para a galeria dos grandes vinhos italianos, exemplo que atraiu todos os produtores da região. É bem versátil à mesa, especialmente com pratos ricos em molhos de tomate, como massas, mas vai também com carnes ensopadas.

O trio de tintos, cada um em sua hora, é completado pelo dolcetto, também denominação de uma uva local, que, ao contrário do que o nome sugere, de doce não tem nada. É um vinho seco, mais leve que os demais tintos da região, muito utilizado pelos piemonteses para iniciar a refeição, particularmente com antepastos, embora vá também com massas e pizzas. Essa falsa interpretação tem gerado uma imagem negativa que os dolcettos definitivamente não merecem. A grande maioria dos bons produtores de barolos e barbarescos têm dolcetto em sua gama e são fonte confiável para quem quer conhecer suas virtudes. Boa alternativa também é buscar as denominações de origem específicas, caso da Diano d’Alba e Dogliani. A propósito, justamente em função da associação desfavorável trazida pelo nome da casta, a partir de 2011 o termo dolcetto deixa de ser utilizado, fazendo com que os vinhos passem a se denominar unicamente, por exemplo, Dogliani, subindo ainda para a categoria DOCG.

Se o Langhe é conhecido pelos seus vinhos tintos, no que diz respeito a brancos ganha destaque a região vizinha, Roero, situada na outra margem do rio Tanaro. É a terra do Arneis, vinho aromático, fresco e macio, companhia ideal para outra especialidade do Piemonte, as trufas brancas. Há trufas em alguns outros cantos do planeta, pretas sobretudo, mas nenhuma tem aroma e sabor tão intenso e instigante. Tais atributos devem ser valorizados, razão pela qual devem compor pratos delicados, enriquecendo a receita, mas não sendo ofuscada por ela. Em qualquer deles, tintos nem pensar. A pedida é um Roero Arneis.

Assim mesmo, a quase desprezada região de Roero não se limita à arneis e outros brancos. A área faz parte da denominação Nebbiolo d’Alba, além de ter o próprio Roero Rosso, elaborado majoritariamente com uva nebbiolo, complementada com até 5% de outras castas locais. Para atestar sua seriedade, só podem ser comercializados 20 meses após serem produzidos (32 meses para os “Riserva”), e os preços são bastante atraentes. Nos últimos anos houve uma nítida e generalizada evolução qualitativa, puxada por alguns produtores, caso de Matteo Corregia, Giovanni Almondo e Malvira, três integrantes do Consorzio Langa In e sem importador no Brasil.

Nenhum italiano termina uma refeição sem sobremesa, e o Piemonte também tem especialidade para aquelas que são ali comumente servidas, a panna cotta e as tortas de avelãs. É o moscato, vinho branco aromático, adocicado, levemente frisante e pouco alcoólico, feito com a uva de mesmo nome em áreas bem específicas.

Basicamente todas essas opções estavam representadas no evento do Langa In em São Paulo, particularmente numa prova comentada de 13 vinhos. A “masterclass” teve início, como não poderia deixar de ser, com um belo e característico dolcetto di dogliani, o San Luigi, de Quinto Chionetti, da ótima safra 2010, cujo frescor, equilíbrio e delicadeza de taninos deixou ótima impressão. Na sequência foi servido o Roero Rosso Riserva Trinità 2007, da Malvirà, um especialista da região e que faz jus à reputação, tanto em tintos, caso presente, como em brancos. Seus arneis, aliás, alguns deles “crus”, são referências no gênero.

A série dos vinhos de maior prestígio do Piemonte começou com dois barbarescos, ambos 2008, uma colheita considerada ao mesmo tempo ótima e clássica para a uva nebbiolo. Ter a mesma safra permite analisar melhor os estilos – tradicional e moderno – de cada vinícola, o que, em se tratando de barolos e barbarescos faz diferença, a despeito de muitos produtores se esquivarem da questão, alegando que ela não é relevante e o que interessa é se o vinho é bom.

As opções que o produtor tem – seguindo um ou outro modelo– não se limitam à utilização de botti ou barricas – caso dos modernistas -, mas envolve todo o procedimento, desde o vinhedo até a vinificação, onde entram, entre outros elementos, tipos de cubas de fermentação e tempo de maceração. O resultado não é o mesmo e não se pode justificar a necessidade de tal mudança, fazendo menção aos vinhos da década de 1970, quando os barolos eram muito austeros e tinham taninos duros. De lá para cá, mesmo os conservadores deram mais atenção à qualidade da matéria prima e aos conceitos de elaboração, moldando nebbiolos clássicos, com apego às raízes – vide Bartolo Mascarello, Brovia ou Rinaldi. Isso redunda em vinhos ricos e com a complexidade que o terroir oferece, o que muitas vezes não se encontra na versão mais contemporânea. Nesse caso, há casos e casos. Fogem dessa imprecisa dualidade produtores como Roberto Voerzio, Gaja, Vietti e Elio Altare, entre outros, além de fatos pontuais, um deles descrito mais abaixo.

Toda essa preleção serve para analisar os dois barbarescos 2008 servidos na degustação do Langa In, o Vigne Erte, de Cigliutti, e o Vanotu, de Pelissero (também não têm importador). Apesar de ambos mostrarem boas credenciais e demonstrarem virtudes, o primeiro apresenta aromas mais sofisticados, tem mais estrutura e expressão da casta, enquanto o segundo, sem que lhe falte conjunto, baseia-se mais num aspecto frutado, para mim menos cativante.

A bateria de sete barolos que veio em seguida teve ampla maioria dos modernistas (seis), todos da safra 2007: Cannubi, de Pira-Chiara Boschis (importado pela Wine and Olive Merchant – www.wineolive.com.br); Eraldo Viberti; Bric del Fiasc, de Paolo Scavino; Vigna del Gris, de Conterno Fantino (Wine to Go – www.winetogo.com.br); Mariondino, de Parusso (Vinissimo – vinissimo.com.br); e Ciabot Mentin, de Domenico Clerico (Premium – www.premiumwines.com.br). Destes, sem grandes altos e baixos, o (único) grande destaque e melhor vinho do evento foi o barolo de Domenico Clerico, seguido pelo solitário representante dos tradicionais, o expressivo Margheria 2008, de Azélia. A se lamentar a ausência de algum dos barolos de Elio Grasso, um de meus produtores favoritos do Piemonte (www.interfood.com.br), que, embora compartilhe o espaço do Consorzio na Vinitaly e esteja incluído em seu site (www.langain.it), fui informado que ele não é formalmente membro do grupo.

Tenho acompanhado o trabalho de Domenico Clerico e as agruras pelas quais ele passou nos últimos anos. Clerico, hoje com 62 anos, foi um dos pioneiros desse movimento modernista que preconiza, entre outros elementos, o uso de barricas e fato de buscar vinhos com fruta mais evidente e taninos amansados. Goste ou não desse padrão, não se pode negar seus méritos, sua obstinação e dedicação ao trabalho, seja pilotando o trator no campo ou nas tarefas dentro da cantina. Ele faz parte da primeira geração de vinhateiros que resolveu, em meados dos anos 1970, partir para voo solo, contrariando o modelo então vigente, em que as uvas eram vendidas (a preços aviltantes) para cooperativas ou negociantes. Os bons resultados dessa empreitada Clerico aplicou em vinhedos de primeira linha, como o que contribui para o Percristina, seu vinho top, cujo nome não se sabe (eu, pelo menos, não tenho confirmação) se foi dedicado à mulher que lhe vendeu a vinha, ou à sua única filha, que morreu algum tempo antes da compra.

Buscando sempre aperfeiçoar seus vinhos, Domenico Clerico começou a construir uma cantina de estilo arrojado, cujo andamento acompanhei de longe – era passagem obrigatória para se chegar a Monforte d’Alba, onde estão Elio Grasso e Giacomo Conterno, visitas quase imperativas do meu roteiro anual pela região. Nesse meio tempo, Clerico teve sérios problemas de saúde, tendo sido operado várias vezes, mas nada suficientemente forte que o fizesse desistir de retomar suas atividades com o mesmo ímpeto e vontade.

É possível que, em função de tudo isso, tenham surgido notícias dando conta que ele estaria ensaiando uma leve guinada no padrão de seus vinhos, buscando um toque mais clássico. “Sem chance”, afirmou Luciano Racca, responsável pela área de exportação da vinícola, que esteve por aqui para o evento da Langa In, do que se aproveitou seu novo importador no Brasil, a Premium, para mostrar sua gama completa numa reunião privada alguns dias antes. Seu perfil moderno – Luciano Racca prefere chamar de “purista” – se encaixa muito bem na linha (digamos) base, composta pelo Dolcetto Langhe, Barbera d’Alba Trevigne, Capisme-e Langhe Nebbiolo e o Arte Langhe, uma mescla de 90% nebbiolo e 10% barbera. Mesmo reconhecendo inegáveis qualidades, me permito discutir suas consequências no que tange aos barolos – Pajana, Aeroplanservaj e o próprio Percristina. Deixo fora da lista o Ciabot Mentin, meu predileto nas duas degustações, esta entre seus pares, e na do Consorzio, frente aos de outros produtores. Sem trair o modelo estabelecido por seu mentor, é um vinho “mais nebbiolo”.

colaborador-jorge.lucki@valor.com.br

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