O sesquicentenário do maior vinho espanhol

O diretor-geral da Bodegas Vega Sicilia, Pablo Alvarez (ao centro, de gravata borboleta), e as equipes responsáveis pelo evento de comemoração dos 150 anos da vinícola espanhola © 2000 – 2014. Todos os direitos reservados ao Valor Econômico S.A. . Verifique nossos Termos de Uso em http://www.valor.com.br/termos-de-uso. Este material não pode ser publicado, reescrito, redistribuído ou transmitido por broadcast sem autorização do Valor Econômico.  Leia mais em: http://www.valor.com.br/cultura/3632924/o-sesquicentenario-do-maior-vinho-espanhol

Com o tempo a memória pode ratear, mas quando se degusta um vinho mítico pela primeira vez nunca se esquece. Meu primeiro Vega Sicília, o mais prestigiado vinho espanhol e nobre integrante da seleta galeria dos melhores vinhos do planeta, foi em 1985, na “sanduicheria” (embora fosse bem mais do que isso, era assim chamada) La Cave, situada no bairro do Itaim, em São Paulo. O local marcou época pela proposta e pelo belo trabalho que fazia com vinho. Numa das melhores degustações que Clóvis Siqueira, seu caprichoso e competente mentor, organizou, denominada “Os Eleitos”, foram colocados lado a lado, às cegas, cinco vinhos tintos representando o melhor que França, Itália, Espanha e Portugal poderiam oferecer: um bordeaux, um borgonha, um Brunello de Montalcino, um Ribera del Duero e o Barca Velha. Guardadas as devidas diferenças entre eles, a preferência geral recaiu sobre a amostra número quatro, “o Mouton Rothschild, com certeza”. Não era. Era o Vega Sicilia 1972.

A comparação até fazia sentido, porque a Bodegas Vega Sicilia quando foi fundada, em 1864, os espanhóis procuravam se espelhar em Bordeaux. Foi de lá que Don Eloy Lecanda y Chaves, o proprietário das terras, trouxe barris e videiras cabernet sauvignon, merlot e malbec, decidido a implantá-las ao lado das castas nativas da região de Ribera del Duero, onde estava localizado. A iniciativa era arriscada, tendo em vista que, naquela altitude de 800 metros (Médoc está no nível do mar), os extremos de temperatura nada tinham em comum com as condições bordalesas.

À época, a propriedade – a origem do nome é controversa, tendo, em todo caso, a ver com “vega”, que significa ribeira (área localizada à margem do rio, Douro, no caso), no distrito de ou da família Santa Cecilia – compreendia 260 hectares, dos quais 230 hectares seriam ocupados por vinhedos. O projeto vitivinícola foi ganhando destaque, tendo ganhado vários prêmios nas duas décadas seguintes, mas não foi suficiente para impedir que Don Eloy Lecanda, diante da crise financeira que enfrentava, o vendesse em 1888 para a família Herrero, que incorporou terrenos vizinhos até completar os mil hectares que existem atualmente.

Fugindo da filoxera, praga que atacou os vinhedos de Bordeaux na década de 1870 e chegou à Rioja 20 anos depois, o produtor riojano Cosme Palacio alugou a Vega Sicilia no início do século XX, trazendo consigo Domingo Garramiola, que se tornaria personagem fundamental na história da vinícola. Foi Txomin Garramiola, como era chamado, quem moldou os vinhos dentro de conceitos até hoje empregados: técnicas de vinificação e corte bordalesas, e longos períodos de amadurecimento em tonéis e barricas de carvalho, como se utilizava em Rioja. Foi dele a inciativa de, em 1915, mesmo ano em que terminou o contrato de arrendamento com Palacio, criar as marcas e engarrafar os primeiros Vega Sicilia e Valbuena – não se sabe ao certo se o primeiro vinho foi efetivamente nesse ano (há o rótulo, mas não garrafas), ou 1917. Até então os vinhos não eram vendidos; destinavam-se aos amigos da família Herrero, pertencentes à alta burguesia e à aristocracia europeia, sendo engarrafados sob demanda. De vinhos exclusivos passaram à condição de mitos ao ganharem prêmios relevantes, como as medalhas de ouro em Madrid e Barcelona em 1927 e o Gran Premio na Exposição Internacional de Barcelona, equivalente a uma feira mundial, dois anos mais tarde, feitos que continuam a ornar seus rótulos.

Outra figura importante na história do Vega Sicilia foi Jesús Anadón, tanto pelo desenvolvimento do vinho quanto por assegurar sua continuidade nas duas trocas de comando ocorridas na propriedade. Ao se aposentar, em 1985, depois de 30 anos dedicados ao rótulo mais mítico da Espanha, a vinícola já estava nas mãos da família Alvarez, os atuais proprietários, empresários de peso do setor de serviços de segurança e limpeza, entre outras áreas, grupo que conta com 50 mil funcionários. Indicado pelo pai para comandar a nova atividade, Pablo Alvarez, segundo dos sete filhos, com 27 anos e recém-formado em direito, abraçou a causa, dando grande e positivo impulso ao negócio.

Com a parte técnica bem encaminhada, nas mãos do experiente Mariano Garcia, que tinha quase duas décadas na função, Pablo aproveitou os três anos ao lado de Anadón para ter uma visão global do mundo do vinho e ver o que era prioritário na vinícola. Ao assumir sozinho a direção-geral – Jesús Anadón continuou como conselheiro da casa até sua morte, em 1992 -, suas atenções se voltaram para a recuperação dos vinhedos, cuja área plantada, depois de anos sem investimento, havia diminuído para somente 80 hectares, fazendo com que parte das uvas tivessem de ser compradas de terceiros. Embora isso fosse feito com discernimento, a dependência e a falta de controle sobre todo o processo não era conveniente, do ponto de vista qualitativo, no médio e longo prazo.

Diante disso, uma de suas primeiras decisões, em 1987, foi deixar de produzir o Valbuena 3º Año, concentrando os esforços em três rótulos, o 5º Año, o Vega Sicilia Único e o Único Reserva Especial, um vinho não safrado elaborado a partir de uma mescla de várias “añadas”. Hoje, tudo o que é produzido provém dos vinhedos próprios, que alcançam 250 hectares, com idade média entre 35 e 40 anos, e mesmo assim só são aproveitadas as uvas de vinhas com um mínimo de 10 anos – o Único procede só das vinhas velhas.

Os cuidados com a parte de campo tiveram continuidade, culminando em 1998 com um estudo profundo do terreno, que identificou 19 tipos de solos e resultou, em função das castas, idade das parreiras e pequenas diferenças de insolação, na sua divisão em 81 parcelas. Com o objetivo de vinificá-las em separado e poder extrair ao máximo o que o excepcional terroir do Vega Sicilia podia oferecer, as instalações foram sendo aprimoradas ao longo do tempo, até que finalmente uma nova e moderníssima bodega foi construída – estima-se que tenha custado € 12 milhões -, tendo entrado em funcionamento em 2010.

Todas essas melhorias, associadas a uma safra avaliada oficialmente como excelente, a de 2010, deram ensejo ao que se pode considerar o melhor Valbuena 5º Año já produzido – será lançado no mercado no ano que vem -, opinião do enólogo chefe da casa, Xavier Ausás, corroborada pelo seleto grupo de jornalistas internacionais e produtores de fora com os quais estive na visita à vinícola no início deste mês de julho. O programa fazia parte da celebração do 150º aniversário de fundação da Bodegas Vega Sicilia, comemorado em alto estilo com um jantar de gala para 150 convidados, preparado por dois dos chefs triestrelados de maior prestigio da Espanha – Jordi Roca, do El Celler de Can Roca, em Girona, e Juan Mari Arzak, do restaurante que leva seu nome, em San Sebastián.

O menu composto de cinco pratos e duas sobremesas foi acompanhado de dois Montrachets, 2009 e 2011, do Domaine de la Romanée-Conti, do Valbuena 5º Año 2010, dos Vega Sicilia das safras 1994, 1981 e 1953, e de dois Tokaji Oremus, o Eszencia 2005 e o 6 Puttonyos 1972. Além destes rótulos, “mistery wines” foram servidos às cegas aleatoriamente por grupos de mesas – Château Cheval Blanc 1998, Château Angelus 2000, Château Mouton Rothschild 2000, Domaine de Chevalier 2000, Clos de la Roche Domaine Ponsot 2002, Musigny Drouhin 2005, La Mouline Guigal 1995, Gaja Sori San Lorenzo 1999 e Harlan Estate 1994 -, controlados à distância por seus responsáveis, presentes à festa.

 

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