‘Imigrante’ borgonhesa floresce no sul do planeta

26/06/2014

Jorge LuckiSabe-se da importância do terroir, do homem e da variedade da uva quando o tema é vinho, mas dificilmente a interdependência entre esses três fatores é tão clara e crucial quanto na Borgonha, em especial nos seus tintos. Isso se deve à uva pinot noir que os compõe com exclusividade, considerada a mais sensível e caprichosa das castas tintas superiores, por refletir cruelmente as peculiaridades do local onde ela foi plantada e o trabalho do vinhateiro.

Fora de seu habitat original a pinot noir perde as características principais que a distingue de todas as outras variedades – elegância e sofisticação -, resultado de um adequado equilíbrio entre taninos finos, textura e bom frescor, sem que isso se configure como falta de corpo. Aliás, é até certo ponto frequente associar vinho encorpado com tânico ou opulento em boca. No caso, confunde-se estrutura e peso (que bons borgonhas têm), com vinhos impactantes (que tanino e volume provocam).

Seja por questões naturais ou comerciais, os pinots noirs existentes mundo afora são, em geral, mais alcoólicos e apresentam um padrão marcado por fruta muito madura, quase adocicado – “jammy”, derivado de geleia em inglês -, gerando vinhos com grau de acidez insuficiente para dar equilíbrio ao conjunto (as uvas são colhidas mais tarde e procura-se mais extração na vinificação). Poucas regiões têm mostrado vocação para propor pinots noirs que se aproximem do padrão borgonha, e, entre elas, não são todos os produtores que abraçam a causa.

Algumas das melhores e mais seguras opções desses vinhos são produzidos na Nova Zelândia, em particular nas regiões de Martinborough, ao sul da ilha norte, e Central Otago, no trecho meridional da ilha sul. As condições climáticas de ambas são favoráveis à maturação da pinot noir (o que não acontece em Marlborough, mais apropriado à sauvignon blanc), propiciando taninos e acidez condizentes com as características da casta. Ainda que guardem diferenças em relação aos da Borgonha – solo, clones das videiras e peculiaridades do terroir – são os que mais se assemelham aos originais.

O reconhecimento internacional tem acelerado bastante a implantação de novos vinhedos no país – a área plantada subiu de meros 700 hectares em meados da década de 1990 para mais de 5.000 hectares no ano passado. Um dos primeiros a plantar pinot noir nessa fase mais recente – e vitoriosa (de 1980 para cá) – da Nova Zelândia foi Rolfe Mills em sua propriedade à beira do lago Wanaka, em Central Otago, considerada pelo renomado autor inglês Hugh Johnson como a vinícola com os vinhedos mais bonitos do mundo. Vale a pena entrar no site www.rippon.co.nz para confirmar, não sem antes respirar fundo para não perder o fôlego.

É bem verdade que, como bem expressa o ditado “beleza não se põe na mesa”, de nada adiantaria ter uma vista tão abençoada se os vinhos ali produzidos não estivessem à altura do que os olhos alcançam. Não é o caso. Além de ter um terroir privilegiado, o cuidado e a competência com tudo o que se refere à elaboração do vinho, dos vinhedos à vinificação, refletem um profundo respeito e consciência da dádiva recebida. Como já manifestei em outras oportunidades, são alguns dos meus pinots noirs preferidos (e são poucos) fora da Borgonha.

Essa convicção se confirmou ainda mais, recentemente, com a degustação de uma série deles em meio a uma conversa de mais de três horas, exclusivas para o Valor, com Nick Mills, filho do pioneiro e, desde 2002, enólogo responsável pela condução da propriedade – a Rippon é representada no Brasil pela Premium (www.premiumwines.com.br).

Antes de assumir o posto, e depois de ter que encerrar sua carreira como esquiador, Nick passou quatro anos estudando enologia na Borgonha, onde também trabalhou com produtores de renome, como Jean-Jacques Confuron, Pascal Marchand, no Domaine de la Vougeraie, e Domaine de la Romanée-Conti. Na bagagem ele trouxe, entre outros ensinamentos, uma abordagem de valorização do terroir e respeito ao ambiente, o que se traduziu em adotar os preceitos biodinâmicos na vinícola.

A forte noção de terroir trazida da Borgonha está presente em seus vinhos, muito mais do que qualquer tentativa de imitar os pinots noirs de lá. Isso, aliás, Nick Mills aponta que é mérito de seu pai. Ele conta que o pai esteve na Segunda Guerra, servindo em submarinos no Atlântico, e na volta, passando por Portugal, percebeu a presença marcante de xisto no solo dos vinhedos do Douro, semelhante ao que existia na propriedade às margens do lago Wanaka, que pertencia a seus antepassados desde meados do século XIX. Só na década de 1970, depois de trabalhar nos negócios da família, ele voltou para lá com a esposa Lois e os filhos, começando a experimentar mais de 20 diferentes variedades viníferas para selecionar as que se mostravam mais confortáveis naquele ambiente. Mills diz que, “tendo que ser cuidadoso, politicamente falando, ao contrário de outras regiões do mundo, não foi devido à paixão pela Borgonha a decisão de optar por pinot noir. Teve muito a ver com o lugar. Onde cada casta apresentasse melhor desempenho, do ponto de vista qualitativo”.

Não foi, evidentemente, apenas o solo xistoso que determinou a melhor adaptabilidade da pinot noir, assim como a característica diferenciada de seus vinhos. Central Otago, além de se situar no paralelo 45 – é a zona vitivinícola mais meridional do hemisfério sul -, é a única região vinícola da Nova Zelândia que tem influência continental, dada a distância que a separa da costa leste e da barreira formada pela cadeia montanhosa alpina a oeste, que a protege dos ventos úmidos que sopram do mar da Tasmânia – todas as demais regiões do país são afetadas pelas brisas marítimas. Isso resulta em médias de temperaturas relativamente baixas durante o período de maturação das uvas – não mais do que 28 graus durante o dia, baixando para cerca de oito graus à noite -, o que ressalta a importância do solo xistoso, que armazena calor. No caso da Rippon, há ainda a decisiva participação do lago Wanaka na composição do terroir, pela massa termal que ele constitui, atenuando os extremos climáticos.

A partir desses ensaios, Rolfe Mills plantou a primeira parcela em 1982, lançando seus vinhos comercialmente sete anos depois. Hoje são 15 hectares, dos quais oito hectares de pinot noir, formados basicamente por parcelas sem porta-enxerto nem irrigação. A gama de tintos tem início com Rippon Jeunesse, elaborado a partir das vinhas mais jovens, plantadas em 2000 e 2003. Utilizando um processo de vinificação clássico, com leveduras indígenas – vale para toda a linha -, o da safra 2010 provado na ocasião já mostrou o padrão de qualidade da vinícola, com bela expressão de fruta fresca e textura em boca, sensações agradavelmente ressaltadas pela baixa (ótima) graduação alcoólica, 13,3%(!). Os 14 meses de estágio em barris de carvalho francês não novos, serviram para dar um adequado toque final ao vinho. (R$ 186,00).

O carro chefe, que leva tão somente o nome da vinícola e representa o grosso (?) da produção (25 mil garrafas, só), é uma mescla de várias parcelas colhidas e vinificadas separadamente. O 2009, considerada uma ótima safra, tem tudo em harmonia – corpo, taninos, frescor – e o indispensável caráter varietal. Nick Mills, confirmando a ficha técnica, destaca alguns detalhes: 25% dos cachos não foram desengaçados (tradição borgonhesa), 10 meses em barris, dos quais 30% novos (duração do estágio e proporção de madeira nova adequados), pH 3,67 (sem adição de acido tartárico, índice dificilmente alcançado fora da Borgonha) e deliciosos 13,2% de álcool. (R$ 261,00).

Para descrever os dois tops de linha da Rippon, o Emma’s Block e o Tinker’s Field, procedentes de duas parcelas distintas com solos e exposições diferentes – o segundo é puro xisto e está voltado mais para o norte -, vale compará-los com dois borgonhas conhecidos: o primeiro lembra um chambolle musigny, pela sua elegância e feminilidade, e o Tinker’s leva jeito de um bom nuits st georges, com seu lado meio selvagem, no bom sentido da palavra. Assim como os originais franceses, as quantidades produzidas são limitadas: apenas 1.300 garrafas. (R$ 390,00 e R$ 450,00, respectivamente).

Como se fosse necessário comprovar a capacidade de envelhecimento dos vinhos da vinícola, atestado que comprova a excelência de grandes vinhos, dois rótulos ainda foram degustados, com carimbo de aprovação: Rippon 2001 e Rippon 2000. Para completar o dia, uma outra especialidade dos Mills: o Rippon Riesling 2010.

colaborador-jorge.lucki@valor.com.br

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