Alsácia Millésimes 2014 – Introdução

03/07/2014

foto03est-101-col_jlk-d4Tenho um caso de amor – bem resolvido – com a Alsácia. Tudo começou em 1986, quando, durante um curso de vinhos na Borgonha, me sentei ao lado do sommelier de um restaurante estrelado da região. Foi ele quem me iniciou nos vinhos alsacianos, seus segredos e incríveis possibilidades de harmonização com comida, além de ter me apresentado à nata dos produtores locais, onde cheguei a passar bons momentos colhendo uvas e ajudando no processo de vinificação.

Se a Alsácia já atrai pela alta qualidade que seus brancos podem atingir, algo que, na média, só a Borgonha consegue, aquele canto vitivinícola do nordeste da França me fascina pelas suas particularidades, que determinam uma complexa gama de vinhos. O curioso é que, à primeira vista, parece que os vinhos alsacianos, frutados e prazerosos, são fáceis de beber e de se entender. Afinal, é uma das raras regiões francesas em que a casta, normalmente utilizada sozinha e aparecendo com destaque no rótulo, define a característica principal do vinho. Isso fica mais evidente porque as uvas ali cultivadas são muito diferentes entre si: das quatro principais, consideradas nobres, a riesling compõe brancos elegantes, mais secos e minerais; a gewurztraminer, muito aromáticos, com mais álcool e em geral com um toque adocicado; a pinot gris, macios e com bom corpo; e a muscat, bem marcados pela sensação de fruta fresca. Apesar de menos prestigiadas, não devem ser desprezadas a sylvaner, que enseja vinhos leves e com frescor, bons para aperitivo e começo de refeição, e a pinot blanc, mais neutra, muito utilizada na elaboração de crémant d’Alsace, um espumante bem correto cuja aceitação vem crescendo bastante, representando atualmente 24% da produção vinícola da região.

O fato de ter uma linha de brancos diferenciada, capaz de proporcionar ao consumidor um amplo leque de opções e aproveitamentos sem que ele incorra em grandes erros na escolha, por si só já faz com que os vinhos alsacianos mereçam atenção. Quem quiser ir mais além tem um prato cheio e satisfação em dobro. A região tem uma incrível diversidade de terroirs, fazendo com que cada casta assuma diferentes nuances em função de onde ela está plantada, tudo sem perder a identidade. Existe uma sinergia muito forte entre alguns desses terroirs e determinadas castas. Aprofundando-se um pouco no assunto chega-se mais próximo do melhor que a região pode propor.

Em termos vitivinícolas, o trecho mais interessante da Alsácia é a região conhecida como Alto Reno (Haut-Rhin), mais especificamente uma faixa estreita com cerca de 50 quilômetros de extensão, que tem a cidade de Colmar mais ou menos no centro e vai de Guebwiller ao sul até as cercanias de Sélestat ao norte. Isso se deve ao maciço de Vosges, uma cadeia montanhosa que bloqueia os ventos fortes e úmidos que vêm do oeste, criando um microclima bastante seco – é um dos menos índices pluviométricos da França -, e diminui os extremos de temperatura no verão e no outono. Na sua encosta leste, aliás, entre 200 e 400 metros de altitude, ficam os melhores vinhedos. São condições climáticas que explicam porque numa latitude tão elevada – é a região vinícola, fora Champagne, mais setentrional do país – as uvas alcançam índices ideais de maturação. Na verdade, até mesmo de sobrematuração, o que permite à Alsácia ter também a reputação de produzir alguns dos melhores vinhos doces da França, o Vendanges Tardives (Colheitas Tardias) e o Sélection de Grains Nobles (Seleção de Grãos Nobres). Para ter direito a tais denominações, as uvas são colhidas semanas depois do normal, até atingir uma riqueza natural mínima de açúcar bem elevada. No caso dos Sélection de Grains Nobles, a colheita é feita em passagens sucessivas, só sendo apanhados bago por bago (não o cacho), aqueles que forem “atacados” pela botrytis cinérea, fungo causador da “podridão nobre”, como em Sauternes.

Embora o conceito de terroir envolva distintos elementos, como topografia do vinhedo e sua insolação, exposição, microclima e solo, é este último o maior responsável pela complexa trama deles na Alsácia. E isso representa milhões de anos de história geológica bem movimentada. Basicamente, o quase incontável mosaico de solos e subsolos ali existente – calcário, argilo-calcário, xistoso, granítico, pedregoso, vulcânico, e com marna, gesso, e argila combinados – tem origem na depressão do antigo maciço que reunia a atual cadeia montanhosa de Vosges e a Floresta Negra, que resultou na planície do rio Reno.

Foi somente nos anos 1970 que todo esse terroir foi valorizado. Até então havia poucos produtores conscientes de sua importância e o mercado era dominado por negociantes e cooperativas mais interessados em produzir vinhos baratos. Quando um movimento de independência ganhou força, os vinhedos começaram a ganhar destaque, na medida em que seus proprietários começaram a individualizá-los em vez de mesclar a colheita de vários para lançar um rótulo “cuvée”. Não demorou para em 1975 iniciar-se um estudo com o objetivo de implantar a classificação Grand Cru, que elegeria as parcelas com melhor terroir. Isso só se concretizou realmente em 1983, com uma primeira leva de 25 denominações, complementada com outro tanto no início da década de 1990.

Para essa implantação, levou-se em conta o potencial real de cada vinhedo, o melhor terroir, composto de uma noção precisa do tipo de solo e das condições específicas do terreno e do clima, além de uma boa exposição (todos estão situados nas encostas). Para dar mais peso à classificação, somente vinhos provenientes das quatro castas nobres, Riesling, Gewurztraminer, Pinot Gris e Muscat, podiam ostentar no rótulo a menção Grand Cru.

A colocação em evidência do terroir alsaciano a partir das 50 parcelas contempladas com a classificação Grand Cru gerou um processo de conscientização sobre a preservação do meio ambiente, em especial com relação à vida microbiana do solo: os terrenos na Alsácia são profundos, o que permitir que algumas raízes cheguem a 30 metros, gerando nos vinhos inquestionáveis diferenciais de qualidade e complexidade. Não é de se estranhar que a região tenha um dos maiores contingentes de seguidores da cultura orgânica e dos preceitos biodinâmicos na França. Nem na vizinha Alemanha, onde o filósofo (austríaco de nascimento) Rudolf Steiner desenvolveu as teorias antroposóficas, que é a origem da escola biodinâmica – o ponto de partida teria sido em meados da década de 1920 -, o movimento tem tantos adeptos.

Radicalmente comprometido com o terroir e trabalhando segundo os conceitos biodinâmicos com o objetivo de exprimi-lo com o máximo de perfeição, Jean-Michel Deiss, um dos produtores mais respeitados da Alsácia (representado no Brasil pela Mistral), voltou às origens para recuperar a antiga tradição de plantar todas as castas juntas. Segundo ele o terroir é tão forte que domina qualquer outro fator, determinando por si só o estilo e a personalidade do vinho. Deiss insiste que plantar apenas uma casta impede a manifestação completa do terroir, “da mesma forma”, segundo ele, “que uma pessoa com um vocabulário demasiado pobre fica impedida de exprimir sentimentos profundos”.

Enfrentando tudo e todos – a legislação Grand Cru sempre considerou obrigatória a menção da casta no rótulo -, Jean-Michel não pestanejou em passar a adotar a coplantação (parreiras de variedades distintas são plantadas aleatoriamente na mesma parcela) a partir de 1994, primeiro em seu Grand Cru Altenberg de Bergheim e a seguir nos demais vinhedos, inclusive no célebre Schoenenbourg. Tanto brigou que a Justiça francesa, em sentença publicada em 2005, lhe deu ganho de causa. Seus três Grand Crus, os dois citados mais o Mambourg, passaram a poder contar com a classificação sem necessidade de mencionar a variedade.

Foi com base nessa decisão que a Alsácia pode acrescentar mais uma denominação aos seus anteriores 50 Grand Crus, o Kaefferkopf, cujos viticultores haviam renunciado ao direito de ascender à categoria superior para poder conservar a possibilidade de misturar as castas, como no passado. Foi, a propósito, na mesma leva, que foi outorgado, a uma parcela do vinhedo Zotzenberg plantada com sylvaner, o direito de portar a appellation Grand Cru – é o único Grand Cru da Alsácia que não é produzido somente com riesling, pinot gris, gewurztraminer ou muscat.

O preciosismo de Jean-Michel Deiss não poderia deixar de se refletir em seus vinhos. São brilhantes, ricos e de rara pureza. Requerem, contudo, algum conhecimento antes de se adquirir uma dessas preciosidades. É que, em sendo a expressão de cada terroir e não tendo a variedade como referência, não fica evidente qual é o estilo do vinho que se tem pela frente. Mais ou menos aromático, mais ou menos seco? Tudo depende do solo, do terroir ser mais tardio – que dá mais açúcar residual, caso do Altenberg de Bergheim – e se há predominância de alguma uva – Schoenenbourg tem mais Riesling -, por exemplo, o que pode dificultar a escolha da garrafa mais indicada para acompanhar um determinado prato.

Isso, a bem da verdade, vale para os vinhos alsacianos como um todo, independentemente da casta utilizada na sua composição – tem a ver com a mão e convicções do produtor. Nesse sentido, atendendo aos crescentes apelos dos restaurantes e seus clientes, a prestigiada Zind-Humbrecht, umas das mais estreladas vinícolas da Alsácia (distribuída pela De la Croix), começou a elaborar brancos mais secos no início da década passada, passando a mencionar no rótulo, logo abaixo da graduação alcoólica, um índice que define o grau de açúcar residual do vinho – de “1”, seco, a “3”, doce. Vários produtores seguiram o mesmo caminho, caso de Louis Sipp (sem importador), que especifica claramente a sucrosidade através de uma escala numerada de um a dez exposta na contra etiqueta da garrafa. Se existia alguma barreira para mergulhar no paraíso dos vinhos brancos alsacianos, não há mais. “Allez y”, vamos nessa!

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