Alsácia Millésimes 2014 e a arte da harmonização

foto10est-101-col_jlk-d4Este último foi a senha para entrar nos doces, cuja mesa foi inteligentemente dividida em vinhos direcionados a tarteletes de frutas vermelhas, carolinas de caramelo e praliné, e macaron de chocolate, grupos bem distintos que pedem acompanhamentos diferentes – as de framboesa e de morango com o frescor de dois belos rieslings vendanges tardives, de Hubert Metz e Louis Hauller; o praliné com o Pinot Gris Vendanges Tardives 2008, de Jean-Claude Gueth; o caramelo com dois gewurztraminers, o Grand Cru Rangen 2009, de Zinck o Grand Cru Kanzlerberg 2005, de Sylvie Spielmann; e o macaron de chocolate (não amargo, caso contrário só com vinhos apropriados, caso de Banyuls, Porto, Madeira ou Pedro Ximenes) com o Gewurztraminer Bildstoeckle Vendanges Tardives 2009, de Ginglinger-Fix. Só para confirmar que o resultado seria ruim, fiz dois ensaios mudando os pares, colocando lado a lado as frutas vermelhas com gewurztraminer e o macaron de chocolate com riesling. Quase estraguei a noite.

Na manhã seguinte, 92 produtores, o melhor da Alsácia, estavam reunidos para o Millésimes d’Alsace, o salão propriamente dito com duração de um dia, em torno do qual o CIVA montou uma programação para os quatro dias subsequentes, dirigida a profissionais da área vindos de 18 países considerados importantes para os vinhos alsacianos – no caso do Brasil, mais para “potencialmente” importante, o que é uma pena.

Mal havia dado para começar a peregrinação e já soava o sinal para a primeira das duas “masterclass” previstas. Realizadas numa sala à parte, com inscrições limitadas, ambas foram comandadas por premiados sommeliers, confirmando a importância que a região confere à relação vinho e comida. Para esta foram convidados sete sommeliers vencedores do mundial da categoria, que escolheram livremente um vinho alsaciano para comentar. O primeiro a se apresentar foi Shinya Tasaki, campeão em 1995 e atual presidente da Association de la Sommellerie Internationale (ASI), entidade que congrega profissionais de 50 países. Tasaki elegeu o Gewurztraminer 2012 da Cave Dietrich & Fils, finalizando seu comentário com uma sugestão de compatibilização com sushi, o que surpreendeu (negativamente) muitos dos presentes e suscitou críticas. É de se estranhar, mas o fato de Shinya Tasaki ser um craque faz com que, ao menos, sua recomendação seja testada.

Na sequência vieram o francês Olivier Poussier (campeão em 2000, no campeonato realizado no Canadá), que escolheu o Pinot Noir Clos de la Faille, especialidade do produtor Albert Mann; o alemão Markus Del Monego (1998, na Bélgica), o Crémant Brut Cuvée 60, da Cave Bestheim; o alsaciano Serge Dubs (1989, na França); o ótimo Pinot Auxerrois Vieilles Vignes “H” 2010, de Josmeyer; o italiano radicado em Paris Enrico Bernardo (2004, em Atenas), Riesling Cuvée Sainte Catherine Grand Cru Schlossberg 2013, do Domaine Weinbach; o suíço Paolo Basso (2014, em Tóquio), o Riesling Clos Saint Urbain Grand Cru Rangen 2012, de Zind-Humbrecht; e o francês Philippe Faure-Brac (1992, no Rio de Janeiro), o Riesling Kappelweg de Rorschwihr Vendanges Tardives 2000, da Maison Rolly-Gassmann.

A segunda “masterclass”, realizada no período da tarde e dirigida por Caroline Furstoss, premiada sommelier e colaboradora assídua da “Revue du Vin de France”, e Romain Iltis, sommelier-chefe do triestrelado restaurante L’Arnsbourg e campeão francês da categoria em 2012, teve como tema a capacidade de envelhecimento dos vinhos alsacianos. Um painel bastante representativo, tanto no que se refere às três castas mais importantes da região – riesling, pinot gris e gewurztraminer – quanto às safras – 1996, 1994, 1990, 1985 e 1945 -, ajudou a comprovar plenamente a tese, com todos os vinhos mostrando riqueza, complexidade e que têm ainda um bom chão pela frente. Vale, ao menos, citar expressamente o Riesling Kitterlé 1945, do Domaines Schlumberger, com sua cor âmbar, aromas intensos e complexos, mantendo vivacidade, equilíbrio e caráter varietal na boca, sem notas de oxidação. “A wine of god” foi o comentário dos dois apresentadores ao citar que foi o ano em que terminou a Segunda Guerra, acrescentando que a cidade tinha sido libertada em agosto. “A natureza fez tudo”, assinalaram.

Usando todo o tempo disponível, sem parada para descanso ou para um lanche – de passagem deu para notar que o buffet do almoço estava apetitoso -, fui atrás dos produtores que eu havia listado antes, entre conhecidos, imperdíveis, e os que tinham me impressionado no dia anterior. Com em média oito vinhos de cada um para degustar, tudo exposto com clareza num livreto bem montado, e levando em conta a oportunidade de ter um contato pessoal com seu mentor, até que cheguei perto de cumprir o roteiro que eu me propusera. Deixei alguns de lado durante o salão sabendo que possivelmente os encontraria nas visitas e jantares programados para o resto da semana. Além dos citados na tabela publicada nesta página, contendo os produtores presentes no mercado brasileiro e uma breve avaliação deles, cabe ressaltar outros nomes que me impressionaram positivamente. O primeiro deles – talvez o melhor conjunto de rótulos que provei nesse roteiro pela Alsácia – é Ostertag, cujos vinhos já estiveram no Brasil, o mesmo acontecendo com André Kintzler e Josmeyer. Menção também para Louis Sipp.

O programa proposto pelo CIVA merece só elogios e agradecimentos, extensivos aos produtores que nos receberam com tanta atenção e carinho, o que, aliás, é bem próprio dos alsacianos. Mesmo assim, correndo o risco de ser injusto por destacar algo em particular, não posso deixar de assinalar a degustação de 15 grandes rieslings – desde novos até mais antigos, de 1990, 1985 e 1973 – e quatro pinot gris, todos do prestigiado Grand Cru Kirchberg, organizada por seis produtores de Ribeauvillé – Bott Frères, Cave Cooperative de Ribeauvillé, Henry Fuchs, André Kientzler, Jean Sipp e Louis Sipp – numa “cabana” armada no meio do vinhedo que dá origem àqueles vinhos, com vista para o vilarejo (é a fotografia publicada na coluna da semana passada).

Num contexto menos festivo, mas tão ou mais emocionante, Catherine Faller, visivelmente comovida, mas mantendo a fibra, preparou, na visita ao seu Domaine Weinbach, uma prova inesquecível de 17 vinhos, entre eles alguns dos últimos elaborados por sua irmã Laurence, que morreu vítima de um ataque do coração há dois meses, aos 47 anos. A perda é grande, mas a vinícola certamente não perderá o brilho. Esse triste episódio me faz lembrar que foi pouco tempo depois de seu marido falecer, por volta de 1980, que Colette Faller, mãe de Catherine e de Laurence, sem deixar a peteca cair, conduziu uma degustação de seus vinhos (eram os Quintessence de Grains Nobles) na Académie du Vin, em Paris. Tanto quanto os de agora, eram sublimes. Brindo com três deles: Riesling Grand Cru Schlossberg Cuvée Sainte Catherine 2008, Gewurztraminer Grand Cru Furstentum 2011 e Pinot Cris Altenbourg Quintessence de Grains Nobles 2010.

colaborador-jorge.lucki@valor.com.br

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10/07/2014

Poucas regiões têm ligação tão forte entre vinho e comida como a Alsácia, o que faz daquele canto da França um verdadeiro paraíso enogastronômico. Pratos locais de características bastante distintas entre si encontram sempre par perfeito com algum dos brancos que compõem a variada gama vinícola alsaciana. É o caso da tarte à l’oignon, uma espécie de pizza de massa bem fina que se destaca com a vivacidade de um sylvaner ou de um pinot blanc; do foie gras, com sua textura pastosa, que pede a maciez de um pinot gris; do choucroute à l’alsaciènne, que ganha dimensão com o frescor de um riesling; e do baeckeoffe, um cozido no forno que precisa da presença mais atuante de um bom pInot gris. O aromático e intenso gewurztraminer, de muita personalidade, sai-se bem ao fim da refeição escoltando um dos queijos mais identificados com a Alsácia, o possante munster, de preferência coberto com grãos de cominho.

A capacidade de afinamento dos brancos alsacianos com comida não se limita ao universo das receitas regionais. Um bom exemplo é a culinária japonesa. Se até pode parecer lógico que um riesling, por seu frescor e elegância, se acomode bem com sashimis, vale a pena se regalar com a sintonia entre sushi e pinot gris. No fundo, não há nada de surpreendente: a textura do arroz associado ao seu toque adocicado é o grande diferencial do sushi, e esses atributos casam com a maciez e a sensação sutilmente doce do pinot gris.

Se o assunto é cozinha asiática, é difícil arranjar melhor acompanhamento do que os brancos da Alsácia. Em especial quando se trata de pratos condimentados, como ocorre com os de origem thai e indiana. Na primeira, onde se mesclam sabores picantes e agridoces, é preciso um vinho que tenha acidez bem presente e paladar frutado, até com alguma tendência adocicada – a riesling se encaixa perfeitamente. No caso da indiana, que tem mais especiarias e é mais intensa, a pedida é um gewurztraminer, que é potente e até leva no nome a palavra “condimentado” – “gewurz” em alemão. Combinações menos rebuscadas, mas igualmente exitosas, são de riesling (os mais secos e minerais) com salmão marinado e defumado, ostras, aspargos e com fondue de queijo.

O vínculo entre vinho e comida na Alsácia é tão vivo que houve quase sempre uma forma de relacioná-los nos eventos constantes do programa elaborado pelo Conseil Interprofessionnel des Vins d’Alsace (CIVA) para o Millésimes d’Alsace, salão que tem lugar a cada dois anos em Colmar, centro vinícola da região, realizado de 16 a 19 de junho último. Uma amostra disso foi dada já no dia anterior, com uma maratona de vinhos e provas de harmonização propostas pela DiVINes d’Alsace, associação fundada há três anos e que reúne cerca de 70 mulheres ligadas ao setor vitivinícola da região, entre produtoras e filhas de produtores, enólogas, sommeliers ou que ocupam funções de promoção e comercialização.

Divididos em “ilhas”, cada uma com temas específicos – tartes flambées (a citada espécie de pizza de massa fina, aqui com diversas coberturas), Buffet Terre (canapés à base de frios e embutidos), Buffet Mer (entradas com peixes diversos), queijos e, para finalizar, sobremesas, sob a forma de gourmandises -, uma série de vinhos foram colocados com a intenção de analisar as harmonizações. Pressentindo o extenso caminho pela frente, optei por me concentrar apenas nos vinhos. Sem grandes destaques nas duas primeiras etapas, compostas de vinhos de entrada de linha – crémant, pinot blanc, pinot auxerrois, e klevener -, rosés, e pinots noirs, do conjunto de 22 rótulos dá para citar o Riesling Grand Cru Zinnkoepfle 2001, de Jean-Marie Haag; o Riesling Vieilles Vignes 2012, de Ginglinger-Fix; o Schoffweg 2010, de Marcel Deiss; e o Pinot Noir Bollenberg Harmonie 2010 de Valentin Zusslin.

No embalo, para tentar me antecipar ao bolo de gente que seguia o mesmo caminho e se aglomerava cada vez mais – a proposta do evento foi muito boa, mas a organização pecou ao não perceber que seria quase impraticável degustar com tanta gente disputando a ilha ao mesmo tempo -, passei batido pelas comidinhas e fui animado encarar os 14 vinhos dispostos em série na mesa dedicada ao Buffet Mer. Contando sempre com informações precisas das quatro mulheres responsáveis pela seção, e o fato de 13 rótulos serem de riesling, com alguns grands crus entre eles, o que permitia comparações, vários vinhos sobressaíram, já me chamando a atenção para produtores menos familiares para mim: Riesling Grand Cru Wineck-Schlossberg 2010, de Vignoble Klur; Riesling Grand Cru Osterberg 2010, de Louis Sipp; Riesling Grand Cru Frankstein 2012, de Beck-Hartweg; e Riesling Grand Cru Kaefferkopf Vieilles Vignes 2010, de Jean-Baptiste Adam.

A primeira parada para abastecimento foi no espaço dos queijos, onde me detive a avaliar as harmonizações propostas. A louvável tentativa das “Divines” de ousar um pouco, sugerindo dois rótulos não óbvios para cada um dos sete queijos servidos, foi interessante, com constatações e algumas boas surpresas: é certo que queijos pedem vinhos brancos – sem sucrosidade mais evidente, o que aconteceu e não me agradou -, mas foi correta a combinação de pinot noir (bom) com o Lou Claousou, de massa mole e produzido com leite de ovelha, assim como com o Camembert; boa a parceria de Carré de l’Est, também de massa mole, com pinot gris; ótimo o casamento de um Vieux Comté, com o diferenciado Pinot Blanc Vieilles Vignes Pierre de Lune 2012, de Hubert Metz; e Roquefort com Vendanges Tardives.

Antes de passar às sobremesas, que acompanhadas de vinhos doces iriam prejudicar a prova, preferi não deixar para o fim a degustação de dois “flights” de rótulos da safra 2000, tops de linha de 16 produtores. A decisão foi acertada; teria sido impossível perceber a riqueza desses brancos com 14 anos de idade, mas com bastante estrada pela frente. Despontaram: Riesling Grand Cru Kanzlerberg, de Sylvie Spielmann, Riesling Grand Cru Steingrubler, de Stentz-Buecher, Riesling Grand Cru Karfferkopf, de Jean-Baptiste Adam, Riesling Grand Cru Pfingstberg, de François Schmitt, Pinot Gris Grand Cru Sonnenglanz, de Bott-Geyl, Rotenberg, de Marcel Deiss e Pinot Gris Coeur de Tries Sélection de Grains Nobles, de Louis Sipp.

 

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