Rioja, acertando o passo para recuperar a imagem

foto14est-101-col_jlk-d4Tradição conta muito para uma região vinícola e é do que mais se ressentem os países do Novo Mundo. Nesses, não há, normalmente, um mapeamento preciso das áreas e de seus solos, bem como uma uva que se identifique imediatamente com eles.

Abordar esse assunto me remete logo àquela frase, já citada outras vezes aqui, proferida pela Baronesa Philippine de Rothschild, sucessora do pai no comando do célebre Château Mouton Rothschild: “produzir vinho é relativamente simples, só os primeiros duzentos anos são difíceis”. O tom irônico da declaração, dirigida aos países emergentes (no cenário vitivinícola), ressalta que na Europa os vinhos embutem história e terror, fatores que levaram à seleção natural das uvas que cada região utiliza, assim como a um estilo bem definido que sempre deu certo.

A vantagem que o passado oferece, no entanto, pode converter-se em problema se vier carregado de vícios e inércia, que acarretam vinhos pouco adaptados ao padrão do consumidor atual. Muita coisa mudou no setor de vinhos na segunda metade do século XX, em particular nos últimos 30 anos. Não acompanhar essa evolução é, sob o ponto de vista mercadológico, pecado mortal.

Ainda que tardiamente, várias regiões da França estão se reestruturando, assim como o Dão, em Portugal, e o Veneto, na Itália. O mesmo se passa em Rioja, segunda etapa do meu recente roteiro por algumas regiões vinícolas da Espanha, que começou em Ribera del Duero e foi tema das duas últimas colunas.

Junto com Jerez, Rioja sempre foi a região vinícola mais importante do país ibérico. Embora os vinhos de ambas sejam mencionados desde o tempo dos romanos, os riojanos tinham menos representatividade fora de suas fronteiras devido à localização e à dificuldade de ligação com cidades importantes de então, como Bilbao e Madrid – registros indicam que foi da Andaluzia que veio a primeira garrafa de vinho para o continente americano (foi de onde partiu Cristóvão Colombo para a viagem de descoberta da América).

A situação melhorou por volta de 1860 com a inauguração das estradas de ferro e em seguida com a desgraça de duas regiões vinícolas próximas – pragas distintas atingiram os vinhedos da Galícia e da França, principalmente. A mais grave delas, e que mudou o panorama vinícola mundial, foi a filoxera, que chegou à França em meados de 1860 e fez com que os franceses, sem vinhedo e sem sua bebida, fossem correr atrás dos vinhos de Rioja e mesmo se instalar por lá.

A região, como toda a Europa, não ficou imune ao desastre, mas até que isso ocorresse, no princípio da década de 1890, seus vinhos conseguiram se firmar definitivamente dentro e fora da Espanha, seguindo, com algumas adaptações – técnicas de vinificação e corte, composição com castas locais, caso da tempranillo, e períodos mais longos de amadurecimento em tonéis e barricas de carvalho americano -, a escola francesa.

Esses conceitos, assim como mudas bordalesas, já haviam sido introduzidos pelo Marquês de Riscal, Don Camilo Hurtado de Amézaga, quando veio de Bordeaux, onde morava desde 1836 – trouxe consigo, inclusive, o enólogo Jean Pineau -, fundando sua vinícola em 1858. Foi nessa segunda metade do século XIX que nasceram algumas das bodegas tradicionais de Rioja: Marquês de Murrieta, em 1852, López de Heredia, em 1877, CVNE, em 1879, La Rioja Alta, em 1890, Palacio (de Cosme Palacio, o mesmo que arrendou a propriedade do Vega Sicilia até 1915, como comentado na coluna sobre o vinho mítico de Ribera del Duero, e não deve ser confundida com a Palacios Remondo, da família do craque Alvaro Palacios), em 1894, e Paternina, em 1896.

“Faz a fama e deita na cama”, diz o ditado. O prestígio alcançado internacionalmente pela Rioja fez com que seus produtores se acomodassem. Alta produtividade, falta de cuidado na vinificação, desleixo na condução do processo de amadurecimento e manutenção do parque de barricas resultaram em vinhos sem brilho e com taninos secos. A reputação da região foi abalada, sobretudo a partir dos anos 1960.

A rigor, boa parte dos problemas dos tintos riojanos tem a ver com o apego aos barris de carvalho, que eram, desde os primórdios, um símbolo de prestígio entre os espanhóis. Os vinhos destinados à elite venciam as grandes e complicadas distâncias entre as regiões produtoras e os centros de consumo bem armazenados em barricas, enquanto a bebida das tabernas ou dos menos favorecidos chegava em recipientes de couro. Eram os odres, que conferiam ao vinho um sabor desagradável. Assim, junto com os benefícios que os barris de carvalho aportavam à bebida, seu odor e gosto se identificaram com o prazer dos ricos. Por associação ou não, o fato é que a classificação dos vinhos espanhóis foi elaborada levando em conta o tempo em que o líquido permanece nesses recipientes, como se a qualidade estivesse unicamente relacionada com isso.

foto14est-102-col_jlk-d4 Até hoje são considerados hierarquicamente superiores aqueles que passam um período maior em casco: no mínimo 12 meses para o “Crianza” e para o “Reserva” – este tem que permanecer mais dois anos em garrafa antes de ser comercializado, enquanto o primeiro apenas um ano -, e ao menos dois anos em madeira nos “Gran Reservas” (mais três anos em garrafa). Vale lembrar que o termo “Crianza” significa “criado” (amadurecido em barricas) e não “para ser bebido jovem”. Prolongar o estágio em madeira, para ter direito à classificação, pode fazer com que o vinho se oxide e mascare todos os atributos que a tempranillo, a uva que caracteriza a região, pode conferir.

A questão é, no fundo, saber administrar o processo, afinal os “velhos” riojas eram realmente bons, tinham esse diferencial – excetuando casos pontuais, como o Vega Sicilia, nenhuma outra região tem como norma adotar estágios em madeira tão longos – e por isso alcançaram tanto sucesso.

Isso significa ter uma boa matéria-prima (uvas), fazer os procedimentos adequados para que o vinho não fique exposto em demasia ou bruscamente – é preciso zelo nas trasfegas (transferência para outro barril), tarefa que tradicionalmente, em Rioja, é executada a cada três ou quatro meses – e tomar os cuidados apropriados de higiene e conservação dos barris. É o que se pode denominar de “lenta e nobre oxidação”, que não estava sendo observada.

Em meados dos anos 1980, a “descoberta” de Ribera del Duero, que marcou o início da explosão do vinho espanhol de qualidade, fez Rioja, que vivia grave crise, acordar. Com excessos, é verdade. Em contraposição ao despropositado modelo vigente, foi criada informalmente a categoria “alta expresión” – algo comparável aos “supertoscanos”, também não oficial na Itália -, termo que caracterizava vinhos sem a menção “Crianza”, “Reserva” ou “Gran Reserva” e era sinônimo de tintos intensos em fruta, extrato e madeira nova. Era o estilo ultramoderno se opondo ao padrão ultraconservador, cujo auge se deu na década de 1990. Bem ou mal, esse novo conceito fez Rioja despertar – quem é grande é grande -, o suficiente para mudar o panorama dos vinhos riojanos e colocar a região outra vez na linha de frente do cenário vinícola do país.

Apesar de ainda existirem produtores muito “moderninhos” – assim como sobrevivem os muito “velhinhos” -, aos poucos os excessos foram (e estão ainda) sendo controlados. Hoje se pode falar em “clássicos” e “modernos” (talvez “contemporâneos” seja mais adequado), onde se destacam, entre outros, La Rioja Alta, Contino, CVNE e Viña Real, entre os primeiros, e Artadi, Allende, Roda, Contador e Telmo Rodriguez, como belos representantes dos mais atuais.

Há os que transitam com sucesso pelos dois lados, tendo em sua gama rótulos expressivos de ambos os estilos, como é o caso da Muga. Categoria à parte é a Lopes Heredia, que produz os cultuados Viña Tondonia, clássico dos clássicos, que eu teria de classificar como um mundo à parte. Um apanhado geral destes e de outros produtores é o assunto da semana que vem.

Para adiantar, porém, vale se antecipar para render homenagem a quem praticamente deu a largada nesse movimento, inteligentemente sem extremismos: Juan Carlos López de Lacalle, proprietário da Bodegas y Viñedos Artadi (segundo o próprio produtor, está sem importador no Brasil; a Mistral ainda tem garrafas em estoque). A Artadi Cosecheros Alaveses nasceu em meados dos anos 1980 como uma pequena cooperativa, mudando paulatinamente sua filosofia até se fixar na produção de vinhos finos, em 1992, como S.A. O processo foi natural, na medida em que Lacalle, que dirigia a cooperativa, começou a perceber a qualidade dos vinhedos que tinha na mão. Do primeiro Viñas de Gain, em 87, saltou para uma seleção de parreiras mais velhas para elaborar o Pagos Viejos em 90, e logo depois o El Pison, proveniente exclusivamente de uma parcela de 2,4 hectares, com vinhas plantadas em 1945 pelo avô de Lacalle. A propósito, a porteira retratada no rótulo do Viña El Pison é a que dá acesso ao vinhedo, um dos raros totalmente murado na região, e data da mesma época.

Atualmente, a Artadi conta com 80 hectares de vinhas localizadas em 15 áreas diferentes, todas situadas num raio de dez quilômetros do povoado de Laguardia, na Rioja Alavesa. A gama foi se aprimorando com o melhor conhecimento das particularidades de cada parcela e de um trabalho mais dirigido que elas exigiam. Com isso, foi tirado de linha o Grandes Añadas – a última safra foi 2001 – para dar mais ênfase aos “single-vineyards”. O El Pison, elegante e com certo toque feminino, tem agora a companhia do Valdeginés, com notas florais, do La Poza de Ballesteros, que tem mais presença de frutas negras maduras, e do El Carretil, com interessantes aspectos minerais.

Do lado dos “clássicos”, cabe abrir espaço para a La Rioja Alta, uma das primeiras bodegas tradicionais que conseguiram dar um salto de qualidade em toda sua linha de vinhos, sem abrir mão de seus conceitos (importado pela Zahil). Com 425 hectares de vinhas atingiram a autossuficiência, conseguindo total controle sobre as uvas que utilizam. Sob o comando do enólogo Julio Sáenz, a vinícola reformou e renovou suas instalações e deu atenção ao processo todo, mudando alguns procedimentos, mas mantendo a essência de cada um dos rótulos. Desde os Reservas – Alberdi, Araña e Ardanza – até os Gran Reservas 904 (quatro anos em madeira) e 890 (seis anos em diferentes barris e seis anos em garrafas antes de ser colocado no mercado), utilizando só carvalho americano, os vinhos expressam com clareza o que existe de melhor no “revival” dos grandes riojas de outrora.

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